segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

COERÊNCIA de ORGANIZAÇÃO.


Toda criação natural, ou humana, tende para um ponto ideal onde é possível verificar a organização coerente das suas partes num todo único, funcional e para a sua existência autônoma. Neste ponto atinge, além do seu ponto de sua plena identidade, o potencial para a sua reprodução.


A partir desta organização coerente é possível examinar as etapas que levam ao ponto esta criação da sua identidade e à possibilidade do sucesso de sua reprodução.


Numa diferenciação ao nível do Discurso do Método cartesiano é possível criar uma hierarquia para atingir este ponto ideal. A tarefa torna-se mais fácil se aproveitarmos as descobertas de psicólogos e pedagogos da arte e da criatividade e na linha behaveorista americana.


Nesta linha tornaram-se clássicos os estudos do pedagogo Victor Lowenfeld[1] e do psicólogo comportamental Joy Paul Guilford[2] cujas pesquisas foram aproximadas, sistematizadas e divulgadas por Robert J. Saunders[3].


Saunders, percebeu que, ao aproximar os dois pesquisadores independentes do fenômeno da criatividade humana, eles percorriam etapas teóricas muito semelhantes. Ao desdobrar a complexidade final da “coerência de organização” Saunders deu-se conta que os dois pesquisadores colocavam a etapa de síntese e que era o resultado da uma análise das partes. Esta analise havia feito um desdobramento e escolha de partes significativas que poderiam ser re-arranjadas sob um pensamento latente de um escopo do projeto de chegada. Este re-arranjo deveria seguir este pensamento de algo novo ou original e que dava o sentido a esta tentativa. Esta originalidade era uma fuga do pensamento único e do de “dejá-vue”. Para afastar este pré-congelamento há necessidade do vigor de uma flexibilidade mental (adaptativa) e natural (espontânea). Esta flexibilidade necessidade da fluência expressiva, associativa, ideativa e verbal. Esta fluência (verbal, ideativa, associativa e expressiva) não é constituída por uma mistura aleatória, mas possui o sua primeiro estágio da qualquer ação criativa que é a sensibilidade de escolher um caminho significativo ou um problema no qual convém investir todas as energias, materiais e ideativas.


Este caminho ou problema escolhido é fundamental em ciências humanas como a História onde Marc Bloch adverte que


A investigação histórica admite, desde os primeiros passos, que o inquérito tenha já uma direção. De início está o espírito. Nunca, em ciência alguma, foi fecunda a observação passiva. Supondo, aliás, que seja possível”. Marc Bloch 1976, pp. 60/61.[4].



O que se espera é que ao final do processo criativo este espírito não definhe ou morra ao longo do árduo caminho. Bem ao contrário. O pensamento autêntico e competente para abrir novos e fecundos espaços para outros pesquisadores proporem outros pensamentos.


Esta abertura é proveniente do amplo leque de escolhas oferecido através da fluência tanto verbal, associativa, expressiva e ideativa é capaz de trazer ao mundo. O lema de Leonardo da Vinci “da pintura como algo mental” é fecundado neste estágio para tomar corpo. Mas esta fluência ideativa já havia recebido sentido por Horácio na direção do seu projeto “ut pictura poesis[5] da Arte Poética. Na cultura humana a fluência verbal denuncia este estágio da abstração competente, ou não, para erguer-se, do ambiente do caos primordial, pelos seus próprios meios. O pensador Wittgensteian sintetizou “Os limites da minha fala significam os limites do meu mundo” no seu Tractatus Philosophicus.


A falta desta capacidade anula o novo e a fluência toma sempre o mesmo caminho da “idéia fixa”, definitiva[6] e absoluta falta de alternativa. Esbarra na incapacidade de administrar as perdas inerentes a qualquer escolha. Este bloqueio da flexibilidade impede a realização do objetivo final (teleologia imanente) e morre diante do primeiro imprevisto ou da racionalização de uma forma pela forma. Na observação do artista Paul Klee[7]boa é a formação, má é a forma, porque a forma é fim, é morte”. A forma pela forma constitui um auto-bloqueio que é a pior saída da criatividade, pois a encerra no “círculo de giz ao redor do peru bêbado”. Sem a presença da capacidade de uma ruptura epistêmica e com o estagio anterior, fica decretada a perpétua infantilização do pensamento e da vida. Um projeto é tanto mais vigoroso quanto mais recursos logísticos e estratégicos constarem em seu arsenal para acompanhar esta rupturas com estágio ultrapassados. Qualquer presunção de onisciência, onipotência, onipresença ou eternidade acaba com todo o processo de flexibilidade. Pessoa que cultiva este tipo de sentimento já está pronta e definitiva e não necessita mais de guia, professor ou escola. É só esperar a ruína destas armadilhas que terminam com qualquer criatividade.


Falta de criatividade que impossibilita qualquer originalidade ou surpresa do novo é único. Diante deste bloco unitário e definitivo não há mais espaço para o exercício de qualquer de análise. A síntese já foi realizada prematuramente e sem trazer nada de novo. O que se produz é um moto contínuo de uma falsa originalidade que se repete ao infinito de uma farsa e sem variações significativas. É a cansativa e monótona endogenia repetitiva e de um único clone. Pode ser tanto da idéia incapaz de tomar um corpo numa forma ou da forma que jamais atinge ser vivificada por uma idéia. Bourdieu sentenciou (1987 p.218) “O conservadorismo estético funda-se na recusa de romper com os códigos conhecidos para entregar-se às exigências internas da obra” .


Nesta dupla via - do problema ao universo da sua coerência de organização final e vice-versa- fica evidente que, tanto no primeiro momento de contato com a obra, ela já se encontra carregada de um pensamento central e que valeu o esforço deste percurso com destino de um conjunto final harmônico e único. O observador do processo possui a certeza que ali emerge e flui algo único e verdadeiro. Na autêntica coerência de organização fixou residência um pensamento vivo que oferece a sua prova na reversibilidade e na capacidade de se colocar em questão a si mesmo a qualquer momento.









[1] - LOWENFELD, Victor. (1903-1960) “Creativity: Education’s Stepchild” in A Source of Book for Creative Thinking, edited by Sidney J. Parnes and Harold F. Harding N.Y.: Charles Scribner’s Sons, 1962.




[2] - GUILFORD, Joy .Paul (1897-1987)., “Introdutory Portion of ‘Creativity’”, “Presidential Adress in 1950”, and “Creativity: Its Measurement and Development”. In A Source Book for Creative Thinking, edited by Sidney J. Parnes, and Harold F. Harding. N.Y.: Charles Scribner’s Sons, 1962.


-----, The Nature of Human Inteligence. N.Y.: McGraw-Hill Book Co., 1967




[3] - SAUNDERS, Robert J. (1926 - )“ A Educação Criadora Nas Artes in AR’TE 10. ano III n o 10, São Paulo :Max Limonad, 1984., pp.18-23 Extraído de Relating Art and Humanities to the Classroom, W.M. C. Brown Co., Iowa, 1977.




[4] BLOCH, Marc (1886-1944) . Introdução à História.[3ª ed] Conclusão de Lucian FEBVRE - .Lisboa :Europa- América 1976 179 p.





[6] - Timeo hominem unius libri. [S.Tomás de Aquino] Tenho medo do homem de um só livro. Deus me livre do homem de um livro só.



[7] - Klee in Bosi, 1995, p. 71

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