segunda-feira, 2 de junho de 2014

87 –ISTO é ARTE

CLÉBIO GUILLON SÓRIA no seu

 GALOPE INCESSANTE.
-"Heureusement que moi, je n'ai pas trouvé ma manière; ce que je m'embeêterais."
“Felizmente não encontrei a minha maneira; isto me aborreceria”'
 http://www.poder-originario.com/news/os-juizes-do-gosto-/


Detalhe do mural  da Estação Mercado do TRENSURB  POA RS - 1986
Fig. 01 – A obra de Clébio Guillon Sória  (*1934- +1987) abriu um caminho próprio e único que durou no seu rápido e intenso trânsito. Como não aceitou copiar a si mesmo, também seria temerário algum discípulo seguir este “GALOPE INCESSANTE” que tinha a sua própria lógica, natureza em constante mudança.

Clébio Sória não renegou as suas origens telúricas e culturais. Construiu a sua obra ao longo seu trânsito entre a sua terra de origem  e o novo espaço humano. Neste trânsito não plagiou nem a si mesmo retroceder sobre o seu percurso.  Clébio sabia que nos seu GALOPE INCESSANTE não existem caminhos. Estes são feitos e criados no galope incessante do TEMPO e deixam apenas rastros. Se ele retornar sobre seu rastro  perderia o seu bem maior que é o TEMPO e retrocedia sobre as próprias pegadas sem criar algo de novo e inédito. Sabia que não podia plagiar a si mesmo ao repetir o seu  próprio trajeto.


Detalhe do mural  da Estação Mercado do TRENSURB  POA RS - 1986
Fig. 02 – O repertório existencial e plástico de Clébio Guillon Sória  partiu das suas experiências pessoais com as grandes invernadas e fazendas de criação pecuária. Ele associou ao momento indústria representado pela ferrovia que transportava este produto aos frigoríficos, ao porto de Rio Grande ou então entregava este produto em vagões frigoríficos diretamente ao mercado de São  Paulo e para a capital federal.

A grande arte de Sória é o de conjugar o seu caminho entre o  seu ENTE no seu modo de SER. Conjuga o seu TEMPO com o seu LUGAR DETERMINADO. Pratica esta arte sem se prender à sua própria maneira e sem se constitui em modelo de si mesmo.

Porem neste galope incessante Clébio não vai solitário. O tropel de toda uma geração o acompanha pois é movido pelo mesmo desafio. Os estímulos recíprocos para expressar o seu ENTE no seu modo de SER num TEMPO e num LUGAR DETERMINADO são comuns e compartilhados entre eles. Toda esta geração de artistas sul-rio-grandenses – do passado e do presente – realiza esta caminhada pelas artes. Porém o realizam de uma forma livre e corajosa. Nesta sua autonomia e criatividade são competentes para praticar consigo mesmos e com a sua obra, a todo instante, uma ruptura epistêmica e estética. Não plagiam a si mesmos e muito menos de sua maneira de ver, de sentir e de praticar a sua arte. Praticam incessantemente a esta ruptura e cultivam o hábito de integridade intelectual.


Detalhe do mural  da Estação Mercado do TRENSURB  POA RS - 1986
Fig. 03– Clébio Guillon Sória  interpretou a Revolução Farroupilha e o gesta temerária de Giuseppe Garibaldi de transportar os lanchões por terra. Para esta obra conjuga as linhas diagonais do comboio com as linhas horizontais da paisagem que são rompidas e emprestam o dinamismo plástico coerente com o dinamismo psicológico do autor e desta gesta.

Clébio após a sua ruptura epistêmica e estética sabia reinventar-se e quanto isto lhe custava. Soube sair de sua terra, submeter-se livre e conscientemente à heteronomia de mestres qualificados. Após isto soube conjugar o seu ENTE no seu modo de SER num TEMPO e num LUGAR DETERMINADO.


Detalhe do mural no Solar San Raphael - Praça Portão  POA RS - 1987
Fig. 04 – A obra de Clébio Guillon Sória - quando traduz a temática urbana – busca, seleciona e aplica os elementos plásticos deslocados do centro da superfície e os dispõe de forma a gerar tensões de volumes que refletem o ente do artista no seu modo de ser  rápido, caligráfico sem concessões com o puro decorativismo ou formalismo de uma unívoca e linear.

No centro de cada de obra de arte de Clébio Sória reside a autonomia de quem a concebeu, portanto o seu pensamento. Quem concebeu a obra de arte  recebe a sua autoria. Esta autoria e iniciativa pode ser um soberano, um grupo ou um artista isolado. A partir da modernidade a autoria é preferencialmente atribuída a um artista singular. Esta autoria imprime o seu pensamento nesta obra e expressa a sua autonomia. Portanto ele também não pode ser constrangido a seguir um estilo, uma escola ou mestre. Assim Clébio Sória perderia a sua autonomia e se colocaria na heteronomia mesmo que fosse o Clébio de antes da nova obra de arte a ser criada.


Fig. 05 – A imagem da obra - ao fundo da foto de  Clébio Guillon Sória -  mostram a linha e a sua disposição sobre o plano numa busca incessante de um grafismo capazdedar conta dos sonhos

A frase de Edgar Degas, acima citada, é coerente com a pessoa e a obra de Clébio Sória. Sória, como Degas, experimentou a arte satisfazendo a  exigência e a distinção aristotélica de que “a arte está no que produz e   não no que produz”. Esta produção é apenas uma senda simbólica para indicar a caminhada, de um ou do outro, pelo campo das forças da arte.

Este fato permitiu aos dois artistas não se plagiarem a si mesmos e, assim, ficarem reféns de uma “maneira” inventada num dado momento do caminho nas artes. De outra parte, esta liberdade, exigiu o tempo todo em que perambularam neste campo rupturas estéticas e epistêmicas para permanecerem fieis a si mesmo, ao seu tempo e lugar.

Detalhe do mural no Solar San Raphael - Praça Portão  POA RS - 1987
Fig. 06 – A Clébio Guillon Sória  como muralista tinha uma admiração pela Arquitetura contemporânea a ele eque permitia generoso espaço para o exercício do muralismo. Tornou-se professor das primeiras turmas da Faculdade de Arquitetura da UNISINOS cujos estudantes guardam lembranças da conjugação ainda possível entre a Arte e a Arquitetura.

Dada esta originalidade, e a coerência com o seu tempo e lugar, tanto Clébio com Edgar Degas não possuem seguidores deste seu caminho único. Isto não impediu que ambos incentivarem outros a aceitar este desafio de serem únicos e coerentes com o seu tempo e lugar. Ambos sabiam que “aluno não faz arte, pois esta na heteronomia do mestre”.
           A coerência de Clébio Sória está muito distante de uma maneira peculiar, de um sistema e muito mais ainda de um estilo. De outra parte esta coerência evitou qualquer ecletismo estilístico

Mural para a Faculdade de Medicina da UFRS entregue no dia 03 de julho de 1965
Fig. 07 – Na transição entre a sua permanência no Instituto de Artes e suas primeiras obras monumentais, a obra de Clébio Guillon Sória expressa a sua passagem pela disciplina cubista e o grafismo da linha

Superadas estas condicionantes Clébio pode se entregar si mesmo. Do lado externo, a esta aventura pessoal e única, o seu observador da obra deste artista  possui a fortuna de encontrar alguém desvelando e mostrando o seu ser sem subterfúgios e falsetes.

No plano conceitual mais elevado da Filosofia Clébio Sória nos desvendo o seu SER no seu TEMPO. TEMPO expresso no seu GALOPE INCESSANTE e a urgência de deixar as pegadas do seu SER nas suas obras. Agora os dois pertencem irremediavelmente ao passado.


Clébio Sória e o projeto do  mural  da Estação Mercado do TRENSURB  POA RS - 1986
Fig. 08 –  Clébio Guillon Sória seguia os ensinamentos dos  seu mestre Aldo Locatelli (1915-1962) para quem 75% do trabalho do artista estava na concepção de sua obra. O problema residia na fidelidade e coerência do muralista na sua obra definitiva   Clébio não abria mão de ele mesmo passar esta concepção para a obra definitiva.

Se de um lado é de lamentar o desaparecimento do artista fragilidade das pegadas de suas obras. Contudo estas obras na sua fugacidade e fragilidade carregam o máximo do SER e do seu TEMPO. A fortuna da memória da pessoa desta obra e do artista repousa, hoje, na sua sólida família. Esta memoria familiar carregam documentos, registros e obras que permitem ao pesquisador seguira tradição de Giorgi Vasari que escreveu a História do Renascimento Italiano valendo-se da memoria dos familiares dos artistas deste fundante da cultura europeia.  


                                                                                                    GROYS -2000 p.54
Fig. 09 – Nietzsche afirmou (2000, p.134) que “a arte não pode ter sua missão na cultura e formação, mas seu fim deve ser alguém mais elevado que sobre passe a humanidade. Com isso deve satisfazer-se o artista. É o único inútil, no sentido mais temerário.  Esta inutilidade e temeridade segue a lógica da própria vida que é gratuita e não pergunta por que apareceu neste planeta. Conforme Groys (2000: 54) o artista na sua temeridade  gratuidade constrói forças, meios e motivações num mundo utilitário e pragmático que abrem mundos e mentalidades motivações um caminho próprio e único que durou

O livro e a Exposição no CENTRO CULTURAL CEEE são ocasiões, em 2014, para visitar as pegadas do  GALOPE INCESSANTE do percurso único de  Clébio Guillon Sória. Nesta exposição e livro é possível conferir o seu trânsito, sem retrocessos, sobre o seu caminho.  Não plagiou, nem a si mesmo, pois sabia que não existem caminhos. Estes são feitos e criados no GALOPE INCESSANTE do TEMPO e apenas deixam rastros. GALOPE INCESSANTE no qual o artista soube conjugar coerentemente o seu ENTE e o seu modo de SER no seu TEMPO.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS
GROYS, Boris A obsessão pelo novo e o encanto do elitista. BONN: Inter Nationes - Humbold  nº 81 2000 p. 54-56      http://www.hanser-literaturverlage.de/buecher/buch.html?isbn=978-3-446-20964-0
 HEIDEGGER, Martin (1889-1979) SER e TEMPO edição em alemão e português tradução e organização de Fausto Castilho (1929- ). – Campinas SP: Editora da Unicamp; Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012, 1199 p.
 NIETZSCHE, Frederico Guillermo (1844-1900)  Sobre el porvenir de nuestras escuelas. Barcelona: Tusquets, 2000. 179.
 VASARI, Giorgio (1511-1574) Vidas dos artistas. São Paulo: Martins Fontes, 2011,  824 p.
      ISBN 9788578274283  -   http://www.livrariasemfronteiras.com.br/produtos.asp?produto=811232
   
FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS
GALOPE INCESSANTE
TRENSURB


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