quinta-feira, 24 de maio de 2012

ARTE - brasilidade e germanidade - 008



Algumas INTERAÇÕES de TENDÊNCIAS ARTÍSTICAS GERMÂNICAS e BRASILEIRAS nas CICUNSTÂNCIAS da CULTURA da ERA INDUSTRIAL.

“Canto o hino da pátria que permite ganhar o pão para os meus filhos”

José SIMON professor rural de uma comunidade germânica ao longo do Estado Novo


SOGIPA: FRIEDERICH  por Andrés Arjona Guillén ou André Arjonas 1885-1970
Fig, 01 Jacob Aloys FRIEDERICH (1868-1950) defendia que “os teuto-brasileiros não eram alemães no exterior, mas brasileiros de sangue alemão. Não admitindo, portanto, que sua demonstração de fidelidade ao caráter e etnicidade alemães seja confundida com lealdade ao nacional-socialismo”.

Seria ingenuidade, ou má índole, buscar e destacar apenas nomes individuais de artistas, sem perceber, ou evidenciar, as circunstâncias na quais se desenvolveram as suas obras.
O período das duas Guerras Mundiais, e o interregno entre elas, assistiu o triunfo da Era Industrial e onde a Arte foi compelida a dar forma à indústria cultural. A obra do artista mergulhado numa das ideologias, nacionalidades, políticas e estéticas em aberto conflito e contraponto com correntes adversas deste período sofria pesado silêncio, ofensas pessoais e patrulhamentos de toda ordem.



in Nogueira 2005
Fig. 02 –  Cartaz OLHOS AZUES elaborado na oficina Litográfica de Miguel WEINGÄTNER (1869-1928). Esta peça publicitária é um índice da indústria cultural que estava se instalando de Porto Alegre. A conjugação da Musica e as Artes Visuais e a indústria gráfica faz adivinhar o público consumidor de uma época anterior ao Rádio e outros recursos eletrônicos.
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A característica KUNSTWOLLEN germânica pouca atentava para a inteligência dos outros e impunha o direito de sua reprodução, por todos os meios. Diante disto o apelo para a tecnologia, a agressiva busca de território vital e no final os dois conflitos bélicos em dimensões planetárias.


Fig. 03 –  O Atelier de Hans VEIT   (1898-1985), era formado em escola técnica germânica em vidro e em cerâmica. Exerceu esta atividade em Porto Alegre e na forma empresarial e numa linha de montagem de vitrais e de azulejos. Na última etapa criou a Escola UABOI na qual tentava repassar os seus conhecimentos.


As vanguardas europeias encontram,  na estética, desenvolvida em solo germânico, expressões de primeira magnitude. Só para citar o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo e a Bauhaus aglutinaram vontades de aristas que a materializaram projetos em obras fundamentais da modernidade clássica. Tudo isto foi questionado com poder e força ideológica, política e econômica com ARTE DEGENERADA em 1937.

in TUBINO 2007 p.107
Fig. 04 – Uma das plantas industriais de A.J. RENNER , uma das tantas experiências que a iniciativa empreendedora germânica desenvolve desde o início de sua imigração ao Brasil. Em Porto Alegre firmas como a  Wallig, Gerdau, Bins, Staigleder e tantas outras, completaram o seu ciclo econômico com o final da era industrial e o seu capital migrou para serviços, comércio ou bancário. A reciclagem destes espaços urbanos está abrindo espaço para o lazer, turismo e trocas simbólicas.

Neste mesmo ano o Brasil entrava no regime do Estado Novo e alguns anos após opunha-se, pelas armas, ao regime nazifascista. Os descentes dos imigrantes alemães foram catalogados sumariamente como “quinta colunas”. Não importava o trabalho, o patrimônio e a cultura.
Na primeira metade do século XX é possível falar de uma verdadeira hegemonia de artistas germânicos e descendentes no Rio Grande do Sul. Evidente que este não era o seu projeto e muito menos trabalharam para constituir algo separado e autônomo. Toda comparação é odiosa e suscita sentimentos contraditórios de ódio e de amor.

Fig. 05 –  Justina KERNER Pohlmann (1846-1941) pintou em 1901o  retrato de Peter HERMES (1844-1917) um dos lideres de diversas comunidades germânicas do interior do Rio Grande do Sul.

O legado da obra de Pedro Weingärtner formou um dos diversos acervos de arte produzida por descendentes ou artistas germânicos no Rio Grande do Sul. Porém milhares de documentos escritos e obras de arte foram sepultados no campo da amnésia e devido ao medo diante da cultura adotado pelo Estado Novo brasileiro. Este iniciava a sua razia e pela destruição, pura e simples, inclusive de tudo que lembrasse identidade de um estado brasileiro. Assim foram proibidos os hinos estaduais e as sua bandeiras queimadas em praça publica no dia 19 de novembro de 1937. Então a evocação de qualquer traço de cultura estrangeira era mais do que suspeito.

Fig. 06 – Diversos desenhos de Justina KERNER Pohlmann (1846-1941) - que o acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do IA-UFRSG conserva – mostram recortes, como este aqui. Uma das hipóteses é a severa patrulha ideológica desenvolvida pelo Estado Novo Brasileiro desenvolveu contra todos os documentos escritos na língua alemã.
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 O cronista ou historiador que desejara vencer esta barreira nacionalista dificilmente irá encontrar algum documento, obra ou mesmo pessoa. Assim passaram pelo estado personagens como Justina  Kerner, Mira Schendel ou Elizabeth Rosenfeld das quais é difícil localizar obras ou precisar documentos confiáveis. Na obra de Justina Kerner POHLMANN (1846-1941) foram recortadas as anotações em alemão que constavam nos seus desenhos.


Fig. 07 – Um desenho mural exterior de Ferdinad SCHLATTER mostra o domínio técnico do artista e a consequente preservação, em ambiente externo, desta obra. Ela está situada na SOGIPA na parede externa da Casa dos Bávaros. Esta parte dos murais foi pintada no mês do Centenário da celebração do Centenário da Imigração Alemã ao Brasil.
As pinturas de Ferdinand Schlatter da Biblioteca Pública de Porto Alegre foram recobertos com a desculpa de poderiam distrair os leitores e serem pinturas acadêmicas sem valor.


Fig. 08 –  A sede da Sociedade GERMÂNIA Rua Dr. Flores – Porto Alegre depredada ao longo da Iª Guerra Mundial quando foram atacadas e destruídas várias empresas dos descentes de alemães.

Contudo dois artistas já com a sua formação profissional definida e que emigraram da Alemanha logo após a 1ª Guerra mundial não se deixaram enredar neste patrulhamento ideológico de baixa estirpe e numa xenofobia e resistência a tudo o que é novo e diferente.
Trata-se do arquiteto e artista plástico, Joseph Seraph LUTZENBERGER (1882- 1951) e do artista gráfico Ernest ZEUNER (1895-1967)
 Em ambos interessam, neste momento, a sua competência em Artes Visuais. Lutzenberger, vivendo profissionalmente da Arquitetura, mantinha uma produção autônoma e paralela de aquarelas, desenhos e pinturas.


Veja mais em http://zoonzum.blogspot.com.br/2011/01/porto-alegre-um-cotidiano-joseph.html
Fig. 09 – O bávaro Joseph Seraph LUTZENBERGER (1882- 1951) foi um observador dos costumes do povo de Porto Alegre e registrou algumas destas manifestações em desenhos com ironia e ao mesmo tempo  carregada de uma profunda simpatia pelas expressões espontâneas efêmeras do Einfulung tropical em contraste acentuado e ressaltado pela típica Abstrakion do povo germânico.

 O tema destas obras são as de um estrangeiro encantado como diferente de sua terra de adoção. Neles descobriu e descreveu graficamente os costumes gaúchos e técnicas em vias de extinção no próprio Rio Grande do Sul. Palmilhou as poeirentas estradas da época em todas as direções para atender os seus clientes de Arquitetura e trazendo, deste interior, observações visuais. Não deixou discípulos diretos, apesar do respeito e admiração continuada em relação a produção artística.


Fig. 10 –  Uma das imagens antológicas de Ernest ZEUNER (1895-1967) para a Revista de Ensino da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul no momento que uma das diretoras, desta Revista, era Madalena Lutzenberger – filha do Joseph Lutzenberger e irmã do ecologista José Lutzenberger

Já Ernest ZEUNER vivia rodeado de colaboradores e seguidores que se acotovelavam com ele nas oficinas gráficas da Editora Globo. Não impunha o seu modo de sentir a arte e ver o mundo. Um dos seus companheiros que foi o taciturno João Fahrion(1898-1970). Este aprofundou as questões gráficas e foi mais longe no mundo da Arte ao qual transferiu o que não proclamava no seu discurso falado.



Fig. 11 –  Autorretrato do taciturno João FAHRION foi acentuado pelos seus traços expressionistas e que compensavam o quase mutismo social (Abstrakion) amplamente compensada pelo verve do seu traço e pelo projeto mental que orienta esta obra.


João levou seu acervo de conhecimentos e práticas ao Curso de Artes Plásticas do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul. Contudo, também como seu mestre, não impunha nem sugeria a si como modelo. O seu estudante aproveitava este ambiente de liberdade e de camaradagem para solicitar orientações em relação a um problema específico. Manteve a sua autonomia e exerceu a mais fina observação e ironia em relação os seus colegas e superiores da academia


Fig. 12 – Os colegas de  João FAHRION  do Curso de Artes plásticas do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul que não foram poupados pelo mestre do desenho da ilustrações dos livro da Editora Globo, das revistas Madrugada e depois nas magistrais capas da Revista do Globo
. [Da esquerda para a direita na imagem – FAHRION, CASTAÑEDA, TASSO CORREA, FERNANDO CORONA, ANGELO GUIDO LUTZENBERGER, MARISTANI TRIAS e ERNANI CORRÊA]

Edgar KOETZ, (1913 -1969) aprofundou as questões gráficas e as transferiu ao mudo da Arte as palpitações e contradições  da era industrial e do meio urbano. Auto internado no Hospital Psiquiátrico São Pedro refez, em Porto Alegre, o caminho de Van Gogh. 


Fig. 13 – O gênio atormentado de Edgar KOETZ encontrou expressão artística, tanto na sua pintura como no desenho autônomo e para a indústria gráfica de revistas, jornais e livros.


O pintor e artista gráfico Gastão HOFSTETTER ( 1917 -1986) viveu, num bairro operário, o apogeu da era industrial em Porto Alegre e depois sua  lenta entropia. A sua obra está repleta de referências a ambientes carregados de nostalgia de um passado recente, mas que está sendo carregado inexoravelmente pelo tempo da era do artesanato e de objetos da era industrial.

Fig. 14 –  Gastão HOFSTETTER  

Um entre tantos artesões profissionais, Hans VEIT (1898-1985), demonstrava as referências em escola técnica (Werkbund) germânica em vidro e em cerâmica. Exerceu esta atividade em Porto Alegre, na forma empresarial e numa linha de montagem de vitrais e de azulejos.
No conjunto das obras dos artistas de ascendência germânica, atuando nas circunstâncias brasileiras, percebe-se a fidelidade ao pragmatismo germânico onde confluem técnica, domínio, utilidade e profissionalismo. Nas obras dos artistas, da presente postagem, percebem-se também as circunstâncias na quais se desenvolveram as suas obras. Nelas se evidenciou o triunfo da Era Industrial na qual a Arte foi compelida a fluir em direção da indústria cultural. Estas obras também pertencem ao passado devido ao  arrefecimento da era industrial e o surgimento da era numérica digital.  


Fig. 15 –  Hans VEiT  elaborou e forneceu, na década de 1950, as identificações visuais e os escudos oficiais para o prédios da URGS na administração do reitor Eliseu Paglioli. Os trabalhos em azulejos eram a especialidade deste técnico em cerâmica e vidro formado em escola profissional desta especialidade na Alemanha. Han Veit foi um dos consultores permanente na implantação das fábricas de azulejos de Criciúma - SC
Neste passado recente, as obras e as mentalidades, vistas nesta postagem, demonstram a continuidade da fidelidade ao caráter da origem germânica da parte do imigrado alemão e seus descendentes. Ao mesmo tempo, estes descendentes da imigração alemã, romperam, com a sua origem, qualquer vinculo político, administrativo ou ideológico. De um lado a própria administração germânica faz cessar os direitos daquele que toma a decisão de imigrar do seu território. O Brasil e a Alemanha tiveram, e continuam a cultivar distintas evoluções administrativas e políticas. A Alemanha busca formar, e se integrar no bloco europeu, onde se encontram as suas remotas raízes culturais. Enquanto isto o Brasil busca externamente, interagir planetariamente com todos os povos, etnias e culturas e constituir raízes novas. Internamente, a brasilidade possui o projeto de criar uma identidade - nova e própria - com todas as culturas e etnias, que migraram para o seu território, provenientes de todos os recantos planetários.
As distinções entre a cultura brasileira e alemã, sendo percebidas no paradigma da típica mentalidade germânica, abrem diferenças abismais.  A formação do bloco europeu gera um WELTGEIST na Alemanha que colide com a busca brasileira de sua integração nos emergentes (bics). Estas duas maneiras de perceber o mundo abrem oportunidade completamente distintas. No que tange ao ZEITGEIST, as distinções entre uma cultura e uma língua consolidada - ao longo de dois milênios – frente a uma cultura cujo processo de formação  demandam tempos e ritmos completamente distinto da germanidade consolidada. Quanto ao VOLSKSGEIST a insistência germânica de um tipo humano padrão característico contrasta com uma variedade humana brasileira em plena formação. Porém nenhum dos dois lados aceita um ecletismo ou um meio termo, entre estes dois polos tão distintos. Isto é impossível, de um lado, para a característica KUNSTWOLLEN (Abstraktion) germânica e do outro lado para o JEITINHO (Einfuelung) brasileiro, impaciente com longos discursos teóricos.
 O que é belo e surpreendente - nestes dois caminhos distintos - é que cada qual é competente para interagir com as circunstâncias dos seus dois projetos propostos e continuara a mostrar resultados em obras de arte concretas e coerentes com as suas escolhas.

FONTES
Jacob Aloys FRIEDRICHS
DOBERSTEIN, Arnoldo Walter. Porto Alegre 1900-1920: estatuária e ideologia.
        Porto Alegre : Secretaria Municipal de Cultura, 1992, 102 p. il.
___Porto Alegre(1898-1920): estatuária fachadista e  monumental, ideologia e sociedade. Porto Alegre : PUC-IFCH, 1988, Dissert 208 f..
__Rio Grande do Sul (1920-1940): estatuária, catolicismo e gauchismo. Porto Alegre : PUC-Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 1999, Tese 377 f. 

NOGUEIRA, Isabel Porto- El pianismo em la ciudad de Pelotas (RS Brasil) Conservatório de Música 1918 a 1968 una lectura histórica, musicológica y antropológica Madrid : Universidade Autónoma de Madrid - tese 2.000 317 f. il
----------------História iconográfica do Conservatório de Pelotas. Porto Alegre: Palotti, 2005, 283 p. il

PARA  os CONCEITOS de Zeitgeist, Weltgeist, e Volksgeist na Arte, veja
PARA  os CONCEITOS de ABSTRAKTION, e EINFUELUNG na Arte, veja


BLUMENAU e a HERANÇA GERMÂNICA em SANTA CATARINA

JUSTINA KERNER POHLMANN

HILDA GOLTZ

Elizabeth ROSENFELD

Joseph Seraph LUTZENBERGER

Ernesto SCHEFFEL cidadão de Novo Hamburgo
 em Estrela

OBRAS de HANS VEIT em
MOREIRA  Altamir A Morte e o Além: iconografia da pintura mural religiosa da região central do Rio Grande do Sul (século XX) Porto Alegre, IA UFRGS 2005
Disponível em : http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/7181  in Anexos

QUEIMA das BANDEIRAS ESTADUAIS pelo ESTADO NOVO

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