terça-feira, 20 de julho de 2010

ARTE em PORTO ALEGRE – 06.03

PORTO ALEGRE a CIDADE REPUBLICANA do

Dr. CARLOS BARBOSA GONÇALVES

Aldo Locatelli no Palácio do Governo.


Revista do Globo, nº 715 03-16 de maio de 1958 p. 38


Fig. 01 – ALDO LOCATELLI .


O artista e professor Aldo Locatelli (1915-1962) executou uma série de murais no Palácio Piratini[1], após a II Guerra Mundial. Esta obra foi criada no clima da redemocratização posterior ao Estado Novo no Brasil. Estas obras de arte eram potencializadas pela efervescência artística decorrente desta liberdade e da generosidade de quem as encomendava e as recebia. O mestre Locatelli alcançou a sua síntese estética nos murais do Palácio. Esta coerência e culminância ocorreram na época da 1ª Bienal de São Paulo, junto com o apogeu de Portinari e dos primórdios do entusiasmo pela construção de Brasília. Os cidadãos e o Estado mostravam-se, neste período, ainda generosos no âmbito da cultura e da política. A coerência dos murais de Locatelli, no Palácio Piratini, pode ser atribuída às mesmas as causas, que sempre contribuem poderosamente para o desenvolvimento da soberania da arte em qualquer cultura. Estas causas foram expressas por Miguel Ângelo am relação ao grande esplendor do Renascimento: “nesta nossa terra até os que não estimam muito a pintura, a pagam muito melhor que, em Espanha e Portugal, os que muito a festejam
(Holanda, 1955, p. 66)[2].


A temática das imagens, para o Palácio Piratini, brotou do conjunto da História Social do Estado do Rio Grande do Sul [3]. Imagens que plasmam, tanto na política como na arte, as razões da soberania apregoada e sustentada e expresso esteticamente em “novas formas e arrojadas experiências”. Este pensamento foi escrito[4] por Aldo Locatelli para os seus estudantes do Instituto de Artes da UFRGS e na véspera de sucumbir ao câncer acelerado pelas tintas. As imagens, que Locatelli criou, não isolam o Rio grande do Sul dos demais Estados soberanos da Federação. Elas são geradas no âmbito do pensamento proveniente do simples, do puro poder originário do humano universal. Imagens que somam este potencial nas novas formas, arrojadas experiências e de anseios que buscam a síntese de uma expressão estética. Imagens coerentes com a redemocratização do Brasil. Imagens que buscam esconjurar as tristes experiências pessoais, vividas pelo muralista, na guerra,[5] e as cruéis ideologias totalitárias[6] e que ele queria remeter para um passado definitivo. Neste pensamento, os murais do Palácio contornam a temática batida, e a inverídica, da belicosidade da índole do sul-rio-grandense[7] e que o isolam tanto da rica cultura brasileira.


O princípio espiritual que emana do pensamento, que gerou as imagens do Palácio Piratini, retira sua força na criação verbal do conto de Simões Lopes Neto (1865-1916) [8] e que narra a saga do frágil e indefeso Negrinho do Pastoreio[9]. A tragédia deste pequeno escravo mártir Locatelli é interpretada visualmente numa sequência de murais que culminam no centro do salão nobre que leva o nome da lenda. Neles o artista descreveu o mito, e conferiu-lhe relevo visual, no projeto que clama por uma civilização mais humana e igualitária. Estas obras evidenciam o projeto embasado no pensamento que condena o arbítrio. Arbítrio que tenta abafar, pela violência física e psicológica, o que deveria ser a fonte do poder originário da soberania de um Estado pluri-racial. Temática que o muralista bebe na versão do artista pelotense da palavra e cujas raízes se abastecem nas águas profundas do mito africano imemorial de Osíris estraçalhado pelo seu irmão e levado de volta à vida pela ação reparadora de Isis. Ou do massacre do Cristo e sua ressurreição sob os olhares amorosos e misericordiosos de Maria Madalena




[2] - HOLANDA, Francisco de (1517-1584). Diálogos de Roma: da pintura antiga. Lisboa : Livraria Sá da Costa, 1955, 158 p.

Para os murais do Piratini o pintor Aldo Locatelli recebeu Cr$ 1.175.000,00 conforme os contratos de 1951 e 1952. (Corona, 1973, p.13)


[3] - Os murais de Locatelli, para o Palácio Piratini, inscrevem-se na grande saga da temática História Social e fazem eco aos murais pintados pelo paulista Cândido Portinari (1903-1962) e pelos mexicanos José Orozsco (1883-1949) e David Siqueiros (1896-1974). Participam também da cultura muralística da construção e exaltação da identidade regional e nacional, pintados, em 1936, pelo norte-americano Thomas Hart Benton (1889-1975) nas paredes do Capitólio do Estado do Missouri Benton foi um dos mestres de Jackson Pollock http://en.wikipedia.org/wiki/Jackson_Pollock


[4] - LOCATELLI, Aldo “MURAL”ANÁLISE – CONSIDERAÇÕES, MÉTODO E PENSAMENTOS (Tese de concurso para o provimento efetivo da cadeira de composição decorativa dos cursos de pintura e escultura do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul – Porto Alegre, 1962) in Correio do Povo. Caderno de Sábado. Volume X, ano V, no 232 Porto Alegre : Companhia Caldas Junior 22 07 1972


[5] - Os murais de Locatelli passam muito longe das temáticas guerreiras dos murais das batalhas pintadas, nas Américas, por Vitor Meireles (1832-1903), por Pedro Américo (1843-1905) por Martin Tovar y Tovar (1827-1902) no Capitólio de Caracas, ou aqueles da Batalha de Gettysburg, da autoria do pintor francês Paul Dominique Philippoteau (1845-1923).


[6] - O irmão caçula de Aldo foi fuzilado pelos nazi-fascistas.

[7] - Locatelli, seguia Athos Damasceno, o amigo do pintor e do Instituto de Artes, que escreveu (1971, p. 449) : “certamente, as lutas que tivemos de sustentar desde os tempos recuados da Colônia, na defesa de nosso território e na fixação de suas fronteiras, em muito entorpeceram e retardaram nosso processo cultural. Não, porém, tanto quanto seria natural que ocorresse, uma vez evidenciada historicamente a belicosidade crioula, arrolada por aí, com um abusivo relevo, entre virtudes que nos compõem a fisionomia moral. Nossa história está realmente pontilhada de embates sangrentos. Mas lutas e guerras não foram desencadeadas por nós, senão que tivemos de arrostá-las compelidos pelas circunstâncias. Nunca deixamos de ser um povo amante da paz. E, em nossos anseios de construção, sempre desejosos dela. Tropelias e bravatas de certos gaúchos em disponibilidade forçada, não têm o menor lastro Histórico: pertencem aos domínios da anedota que os próprios rio-grandenses exploram, com malícia, para a desmoralização daqueles que o fazem, com malignidade”.

DAMASCENO, Athos. Artes plásticas no Rio Grande do Sul (1755-1900) Porto Alegre : Globo, 1971. 540p.


[8] Para a presente matéria convém ressaltar que a obra de Simões Lopes Neto atingiu o seu apogeu na época do governo (1908-1913) de Carlos Barbosa. Tanto o Presidente do Estado, como os seus mais próximos colaboradores, vinham da região do Rio Grande do Sul onde o escritor produziu e aclimatou a sua obra como Cancioneiro Guasca ( 1910) Contos Gauchescos (1912), Lendas do Sul (1913) e Casos do Romualdo (1914) Conferir http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Sim%C3%B5es_Lopes_Neto



[9] http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/lendasdosul.html#_Toc473373177

- http://e-gauderios.blogspot.com/2008/12/o-o-negrinho-do-pastoreio-joo-simes.htmlhttp://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/lendasdosul.html

O NEGRINHO do PASTOREIO


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 202, p.102

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Fig. 02 - Era uma vez um estancieiro quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo… e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 217, p.112


Fig. 03 - O estancieiro tinha um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam somente o — Negrinho. A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 209, p.109

Fig. 04 - Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o iudiava e se ria.


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 210, p.109


Fig. 05 Um dia depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não! que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro.


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 205, p.107


Fig. 06 - No dia aprazado, na cancha da carreira havia gente como em festa de santo grande. Entre os dois parelheiros, a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não lhe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais agüente e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta...


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 203, p.103.


Fig. 07 - Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera, Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões… mas sempre juntos, sempre emparelhados E a duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão, pôs-se em pé e fez uma caravolta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em pêlo, agarrou-se como um ginetaço.


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 213, p.110.


Fig. 08 - A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas para o peito do pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tíaraju, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem:

— Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro, Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!


Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão.


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 214, p.110.

Fig. 09 O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda… O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.



BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 215, p.110.


Fig. 10 Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:


— Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!


O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.


E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias: a estrela-d’alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejaram o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 217, p.112

Fig. 11- O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela acesa em frente da imagem e saiu para o campo.

Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no chão; e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor lhe marcara.



BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 207, p.107.


Fig. 12 - Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo fora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 212, p.110.


Fig. 13 - O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo… O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu uni suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil . Caxias do Sul : Belas Letras, 2008, fig. 206, p.107..


Fig. 14 - E como já era noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas, e quando elas, raivosas, cobriam todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-la é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.


LAGEMANN, Eugênio et LICHT, Flávia Boni (rg.s) PALÁCIO PIRATINI. Porto Alegre : IEL, 2010, p.89


Fig. 15 - A peonada bateu o campo, porém ninguém achou a tropilha e nem rastro. Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo. Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!... O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto a tropilha dos trinta tordilhos... e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu... Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.

LAGEMANN, Eugênio et LICHT, Flávia Boni (rg.s) PALÁCIO PIRATINI. Porto Alegre : IEL, 2010, p.95


Fig. 16 - Porém logo, de. perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia — da mesma hora — de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!…




. O tema do Negrinho do Pastoreio foi, para Locatelli, oportunidade para reforçar a reparação, a ressurreição e a permanência do patrimônio da cultura africana. Nos seus murais, colocados no endereço mais prestigioso da política sul-rio-grandense, elabora esta reparação que culmina na ressurreição do frágil e indefeso Negrinho do Pastoreio e que sobrevoa, na glória do seu mito eterno, os mortais mais poderosos .



Se a temática nunca foi a determinante de uma obra de arte, os dois artistas, que se irmanaram pelo pensamento no Palácio Piratini, mergulham profundamente as suas temáticas no mundo das coisas que compõe o universo da arte. Tanto João Simões Lopes Neto, como o seu intérprete pictórico, Locatelli sabiam que a temática, desamparada dos meios, da técnica e de uma morfologia adequada, retorna às coisas naturais. Coisas naturais pertencentes ao mundo natural do trabalho e que as leva à entropia universal “porque a Natureza não tem dentro, senão não seria Natureza” segundo Fernando Pessoa[1]. O equilíbrio entre o meio, como mensagem, e o impulso natural e primário, necessita do mundo das formas coerentes nas quais o pensamento designa e escolhe, no repertório humano universal, uma única entre as infinitas formas possíveis. Escolha única exercida no âmbito do pensamento infinito em relação aquilo que é possível realizar no mundo físico da obra. Locatelli escreveu, na sua tese, “válida é a interpretação no desenho, depois de resolvida tecnicamente à compreensão do real é na honestidade do saber que o estudo se torna válido”. Contudo o teste da validade da obra de Aldo Locatelli também se realiza no social. Os seus murais suscitam, em todas as camadas culturais, uma recepção atenta e continuada desde o momento em que migraram da compreensão mental do artista para a sua forma física no mundo empírico.


A obra de Aldo Locatelli, além desta validade e coerência interna e externa,
mergulha a sua origem na fonte da cultura italiana e na sua segura tradição muralística. Miguel Ângelo afirmava, em 1540, para Francisco de Holanda (1955, p. 22)
o privilégio de quem possui a Itália como
berço:


nasceis na província que é mãe e conservadora de todas as ciências e disciplinas, entre tantas relíquias dos vossos antigos, que em nenhuma outra parte se acham, que já de meninos, a qualquer cousa que a vossa inclinação ou gênio se inclina, topais ante os olhos pelas ruas muita parte daquelas, e costumados sois de pequenos a terdes vistas aquelas cousas que os velhos nunca viram noutros reinos.


Em relação a este mito de origem cultural de sua obra, Aldo era competente para perceber e expressar o contraditório, atualizando-o no tempo e espaço. Na tese (1962), que a morte não lhe permitiu defender , ele escreveu:

estamos errados se pensamos que os centros de maior tradição e movimento artístico devem ser os nossos guias, absorvendo-nos com teorias resultantes de ambientes bem diferentes e preocupados de não repetir-se nos exemplos de uma grande tradição. Ao contrário, nós vivemos no princípio da nossa formação de civilização e devemos tentar expressá-la nos nossos próprios valores.


Neste texto ele revelava-se um excelente professor universitário. Locatelli. Como tal era alguém ativamente engajado numa civilização mundial que emergia com as conquistas humanas, posteriores a 1945, como consta na sua tese de 1962:

os artistas de muitas épocas e de nacionalidades diferentes hoje fazem parte de uma civilização cujas premissas e esperanças abraçam todo o mundo. Assim é, consequentemente, neste clima que o Brasil, o nosso mesmo Rio Grande do Sul tão pródigo em vocações artísticas, vivem internacionalmente no mesmo valor de Paris, Roma, Tóquio, Nova York e de Moscou.



A temática e os murais de Locatelli no Palácio Piratini serão eternos enquanto suscitarem o pensamento, a compaixão humana e durar a ação pelo desvalido. Pensamento e compaixão capazes de empenhar todo o trabalho físico, no campo e na cidade para gerar uma civilização planetária com bases nos Estados soberanos que usufruam a sua identidade própria e única. A civilização se identificará nas obras de arte que ela for competente para criar e que resultaram da transformação das contradições em complementaridades. Nestas obras permanecerá, através dos séculos, o seu pensamento que brota da expressão de sua soberania e da sua identidade diante de todos os povos.


Nada é transmissível a não ser o pensamento

Le Corbusier in Boesiger, 1970, p.168[2].



[1] - O Guardador de Rebanhos – Poema XXVIII – Li hoje http://www.cfh.ufsc.br/~magno/guardador3.htm


[2] - Le Corbusier Rien n´est transmissible que la pensée in Boesiger, 1970, p.168.

BOESIGER, Willy . Le Corbusier Les Derniers œuvres Zurich : Artemis, œuvres complètes 1970, , v.8, 208 p.


LOCATELLI em CAXIAS do SUL, em 22 de maio de 1960, na INAUGURAÇÃO da VIA SACRA de SÃO PELEGRINO

Frame do documentário cinematográfico recuperado por Rodrigo Lopes e disponível em http://ocaxiense.com.br/2010/05/locatelli-redescoberto/



BIBLIOGRAFIA RELATIVA ao PALÁCIO PIRATINI


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