domingo, 16 de maio de 2010

VIA SACRA de ALDO LOCATELLI

MEIO SÉCULO da EXPOSIÇÃO PÚBLICA de um GRITO PREMONITÓRIO de TRAGÉDIAS da NOSSA CIVILIZAÇÂO, FAMILIARES e PESSOAIS .


Origem da imagem BRAMBATTI, 2003, p 35. e 2008, p. 185

Fig. 01 – Aldo Locatelli – Via Sacra (1951-1960) – Estação nº 06 – Verônica enxuga o rosto de Cristo (detalhe)

CLIQUE sobre as FIGURAS para AMPLIÁ-LAS.

A série de 14 quadros da Via Sacra, elaborados por Aldo LOCATELLI (1915-1962), ao longo da década de 1950, estão completando meio século de sua exposição pública num templo religioso, a partir de 1960.


Os quadros, da Via Sacra, contém, no mínimo de suas formas, o máximo do artista e das suas circunstâncias, como toda obra de arte autêntica. As 14 estações da Via Dolorosa captaram expressões do contexto histórico de uma época de liberdade e de esperanças. Liberdade de enfrentar o tabu da agonia e da morte, com a mesma disposição com que o Papa promovia o “aggiornamento[1] da Igreja, com a esperança de dois médicos, quando um criava uma nova capital brasileira[2] e outro tentava atualizar uma universidade. Na época da criação de Locatelli as artes visuais eram regadas pela obra de Portinari, pelas bienais de São Paulo e pelo surgimento de museus brasileiros específicos de arte. Este tempo de liberdade de expressão, no contraditório, continha germens, prenúncios e índices de tragédias eminentes a serem esconjurados e enfrentados em tempo, com habilidade e competência. O meio século provou que esta habilidade e competência não vieram em tempo.


Alertado, o observador da obra de Locatelli, necessita muito cuidado na sua contemplação e muito mais na sua travessia diante do abismo cronológico deste último meio século. Meio século que impôs à humanidade um acúmulo gerado pela era industrial, numa velocidade antes desconhecida acelerando as obsolescências programadas de tudo e de todos.

A própria obra de Locatelli foi vitima de um tipo de obsolescência programada. Obsolescência cuja característica é impor sucessivas e intermináveis estetizações pseudo científicas que apagaram e fazem esquecer os momento de sua origem e da personalidade que a gerou.


A Via Sacra de Aldo Locatelli, elaborada no meio de um período de euforias, impõe, contraditoriamente, índices premonitórios de sua própria tragédia do artista como pessoa, da sua família inesperadamente desamparada e de uma civilização perdulária enarcotizada pela indústria cultural, mantida pelo marketing e propaganda carentes de ética.



[1] - O aggiornamento era uma expressão de do Papa João XXIII. Ela buscava a adaptação e a nova apresentação dos princípios católicos ao mundo actual e moderno, sendo por isso um objectivo fundamental do Concílio Vaticano II. Este Papa tinha um sentido especial para Aldo Locatelli pois fora ele em pessoas que o indicara a Dom Zátera para a sua vinda ao Brasil..


[2] - O grande sonho de Aldo Locatelli era deixar as suas mensagens nas paredes dos prédios de Brasília e obras do arquiteto que havia visitado e incentivado os jovens arquitetos e urbanistas, formados no IBA-RS, onde Locatelli agora era professor do muralismo.


Origem da imagem BRAMBATTI, 2003, p 35. e 2008, p. 183

Fig. 02 – Aldo Locatelli – Via Sacra (1951-1960) – Estação nº 05 - Simão Cirineo ajuda a carregar a cruz (detalhe)


No índice premonitório da própria tragédia do pintor estava a sua condenação pelo câncer silencioso, do qual ele suspeitava pelo histórico familiar, mas que tentou afastar, ao máximo, que suas forças permitiam. Na Via Sacra retratando-se na figura do Cirineo que se debruça e contempla próximo alguém condenado e entregue aos estertores dos suplícios corporais e psicológicos dos derradeiros momentos de uma vida.


Origem da imagem BRAMBATTI, 2003, p 35. e 2008, p. 176 e 177.

Fig. 03 – Aldo Locatelli – Via Sacra (1951-1960) – Estação nº 02 Jesus carrega a sua cruz (detalhe)


A Via Sacra de Locatelli é um grito cujo tema é a agonia e a morte como inevitáveis e universais passagens humanas. Contudo, passagens cercadas por tabus, na atualidade, mais de que nunca. Tabus que recorrem aos centros clínicos e crematórios coletivos nos quais a humanidade pretende pacificar estetizar esta etapa da vida, aparentando a agonia e a morte, se não confortável, ao menos suportável individual e coletivamente.

A maioria das religiões recorre aos rituais cênicos que transformam os tabus universais da agonia e da morte em totens coletivos. A Via Sacra, em geral, não foge desta piedosa ritualização e totemização cênica. Recentemente progrediu para a inclusão da Ressurreição como 15º estação da Via Dolorosa.

A inclusão desta encenação num calendário - implacável - trouxe esta encenação, ao mesmo tempo, para o repertório de mentalidades presas aos cíclicos implacáveis da Natureza.

O grito da agonia e morte, mostrado pela Via Sacra de Locatelli, buscou romper com estes estereótipos. Ele rompeu a antiga e consagrada totemização da agonia e morte, recorrendo à sua honesta e a sensível descoberta da origem e sentido deste tabu humano universal. Aldo Locatelli teve de ultrapassar este totem cada vez mais ritualizado e aceito como fato natural.

Além de denunciar as estetizações, ritualizações e totemizações cênicas da agonia e morte, o pintor cercou-se das leituras do texto médico Pierre BARBET,[1], para conferir um mínimo de verdade e o suporte cientifico. Para tanto Locatelli esquece e apaga todas aquelas lindas paisagens urbanas pseudo-historicistas[2] do drama humano e comuns nas outras séries da representação da Via Dolorosa. O autor desta Via Sacra tenta narrar e centrar-se no drama da agonia e morte. Para tanto exclui tudo o que poderia atrapalhar e distrair o seu espectador desta sua escolha. Escolheu, entre os seus elementos plásticos do pintor, aqueles que conduzem e centram-se no rosto[3], na proximidade máxima possível do ser humano visto, e ou encaixado, nos ângulos retos urbanos.

Como índice premonitório da tragédia que se abateria sobre os seus próprios familiares representou-os na condição de atores e espectadores da agonia e morte do Cristo. Familiares que não foram poupados, no momento inesperado que se abateu sobre eles, em razão da rápida agonia e morte do seu pilar central. Contudo os longos sofrimentos, a sua esposa Maria Mercedes Banchirei Locatelli, o Roberto e a Cristiana, apenas haviam começado. A ausência definitiva do esposo e pai trouxe privações econômicas[4], além das circunstâncias de o verem sendo expurgado e eliminado da instituição à qual havia dedicado os seus momentos mais criativos.



[1] - Veja um resumo do Livro de BARBET, Pierre – A Paixão de N.S. Jesus Cristo segundo o cirurgião. Rio de Janeiro : Santa Maria http://www.acidigital.com/fiestas/semanasanta/doutor.htm

[2] - Locatelli já havia pintado este tema dentro dos cânones tradicionais, Locatelli havia pintado algumas via sacras onde predomina este paisagismo Ver Brambatti- 2008- p. 29Ver


[3] - Veja um texto do jornal Lê Monde, do dia 12 de maio de 2010, e no qual se rediscute a importância do rosto humano
http://www.lemonde.fr/opinions/article/2010/05/12/visage-mappemonde-de-l-au-dela-par-yves-simon_1350384_3232.html

[4] Esta penúria econômica foi resolvida, quase uma década depois da morte do artista, pela LEI Nº 5.656, DE 27 DE MAIO DE 1971 que concedeu pensão especial a Mercedes Biancheri Locatelli, viúva do ex-Professor Aldo Doniele Locatelli http://www.lexml.gov.br/urn/urn:lex:br:federal:lei:1971-05-27;5656


Origem da imagem BRAMBATTI, 2003, p 35. e 2008, p.189

Fig. 04 – Aldo Locatelli – Via Sacra (1951-1960) – Estação nº 08 – Jesus consola as mulheres de Jerusalém

(detalhe – figura da filha Cristiana Locatelli)

A pintura desta Via Sacra, foi um dos momentos cruciais da dúvida de Aldo Locatelli que colocava em cheque as suas próprias práticas. Ele escreve nos pensamentos de sua tese[1] :

Compreendemos que a noção em Arte está em crise, é o resultado sempre mais fácil da difusão das culturas e das civilizações. Também a expressão da coletividade moderna, nós a sentimos viva e emocionante no mundo, se refletindo no próprio país. Gentes e homens, elementos expressivos gerados das secretas dificuldades da vida, dos eventos heróicos para os quais o anônimo se imola para o cumprimento de um dever cívico ou para defesa de um princípio espiritual que inspirará os artistas de muitas épocas e de nacionalidades diferentes, hoje fazem parte de uma civilização cujas premissas e esperanças abraçam todo o mundo”.

As premissas e as esperanças abraçam todo o mundo para quem são veiculadas, hoje, por meio da imagem digital e eletrônica. Imagem como da toalha da Verônica impressa com sangue e que nos conduz para um índice premonitório da tragédia da sua civilização dos 50 anos que decorreram da exposição pública da Via Sacra na Igreja São Peregrino de Caxias do Sul. Já no ano posterior a morte do pintor, a imagem do rosto de John Kennedy, em agonia em via pública, ou as sucessivas e reiteradas imagens do Vietnã, do Iraque e de tantos outros eventos sangrentos, são transmitidas, para todo planeta, em tempo quase real, quais telas da Verônica da Via Sacra de Locatelli. Tragédias sucessivas cuja atmosfera geral recebia o nome eufemístico de Guerra Fria que, de fato, era o suplício continuado de crianças, de mulheres e de homens sacrificados entre duas ideologias que repartiam o planeta.



[1] - Correio do Povo. Caderno de Sábado. Volume X, ano V, no 232 Porto Alegre : Companhia Caldas Junior 22 07 1972


Origem da imagem BRAMBATTI, 2003, p 35. e 2008, p.185

Fig. 05 – Aldo Locatelli – Via Sacra (1951-1960) – Estação nº 06 – Verônica enxuga o rosto de Cristo (detalhe)


Esta imagem da Verônica põe em cheque toda a onipotência, a onisciência, a onipresença e os sentimentos de eternidade inquestionáveis para mentalidades primárias. Assim esta imagem, crítica e desestabilizadora, consegue erguer, num frágil pano, a verdade para olhos daqueles os querem fechar a tudo aquilo que possa anunciar a sua própria agonia e a sua morte. Alienação da verdade comandada pela onipotência, pela onisciência, pela onipresença ou pelos frágeis sentimentos de eternidade.

Frágil imagem da Verônica que denuncia também a vulgarização da imagem industrial do livro, da publicidade, dos periódicos e numérico-digitais das telas dos PCs e das TVs.


A humanidade corre o risco de sua auto-extinção devido à tragédia silenciosa e sem nome, das agressões desenfreadas ao meio ambiente, provocadas pelo acúmulo de lixo gerado pela era industrial. O sapato e a lata da industria contemporânea, que figuram nos quadros desta Via Sacra, falam da desqualificação das vítimas deste processo predatório onde se misturam o objeto e o sujeito. O artista Locatelli foi avisado das consequências desta alienação, nascida das entranhas da nossa civilização, e evidentes nos estudos da Escola de Frankfurt, nas obras de Kurt Schwitters, no pensamento e nas obras de Marcel Duchamp e de tantos outros. Perigos advindos da reificação das pessoas e da banalização dos sentimentos fundamentais da beleza, da verdade e da bondade. Perigos concretos para a continuidade da espécie humana.


Assim, ao completar meio século de sua exposição pública, num templo religioso, da série de quadros da Via Sacra de Aldo LOCATELLI, onde eles ganharam, neste tempo, mais e novos significados. Significados que se acumularam sobre o seu conteúdo ao longo deste lapso de tempo e deram razão e completaram a obra do artista. Via Sacra que certamente continuará a manter a humanidade em alerta. Alerta contra outras tragédias eminentes e ainda desconhecidas que comprometem a beleza, a verdade e bondade, cujas causas necessitam serem enfrentados com habilidade, competência e em tempo.



Estes são alguns sentidos, entre muitos outros, daquele grito premonitório, emitido pela Via Sacra de Aldo Locatelli, que ecoa ao longo deste primeiro meio século e cujo suporte encontra-se exposto, ao público, na igreja São Pelegrino de Caxias do Sul.

O presente artigo foi escrito, entre as 21h30min de 12.05.2010 até as 06h50min de 16.05. 2010,

a pedido do jornalista Rodrigo LOPES do jornal O Caxiense www.ocaxiense.com.br. .


Algumas fontes de textos e imagens deste artigo


BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli em Caxias. Porto Alegre : Metrópole, 2003, 96 p. il. Col.


-------------Locatelli no Brasil – Caxias do Sul-RS : Belas Letras. 2008, 240 p. il col.



Alguns espaços numéricos digitais consultados ao longo da elaboração deste artigo


http://locatellinobrasil.wordpress.com/

http://semanaia.wordpress.com/aldo-locatelli/


http://www.soleis.adv.br/leis1971.htm


http://guidomondin.blogspot.com/


www.luismolossi.com/galeria/insieme116.pdf


Este espaço numérico-digital é inteiramente didático - não visando qualquer lucro para o seu autor e que respeita as normas

Um comentário: