sábado, 2 de março de 2013

059 - ISTO é ARTE


SIGNOS HERMÉTICOS:
 da caverna aos pichadores pós modernos.

 “A memória coletiva está ligada a um grupo relativamente restrito e portador de uma tradição, aproximando-se do mito e manifestando-se através da ritualização dessa memória.
 Oliven 1992: 20

ZUCCARO pintando com sgrafitto o Palacio Mattei em 1595: detalhe
Fig. 01 –Taddeo Zuccaro (1529-1566) grafitando, em 1548, o Pallacio Matteo num desenho feito em 1595 na lembrança de seu irmão mais novo  Frederico Zuccaro (1541-1609). Era o tempo em que os grafiteiros trabalhavam à luz do sol, sob a vista de todos os cidadãos, aprovação, admiração e sob contratos pagos pelos donos dos imóveis.  
                                                                          
A obra de arte se completa na sua recepção pelo seu público.  Porém esta recepção possui seus códigos. Códigos herméticos para o público geral fora dos grupos internos dos produtores e eventuais receptores iniciados. Nas artes visuais tanto os produtores como os receptores formam grupos internos de concorrentes entre si. Estes  concorrentes que se agregam tanto na criação de obras como no consumo. Estes se agregam em constelações formando um mercado físico ou simbólico. Mercado de peças físicas e dominado pelo sistema pecuniário. Mercado simbólico das peças da indústria cultural como das peças  conceituais da era numérica digital.

ZUCCARO pintando com sgrafitto o Palacio Mattei em 1595. Conjunto.
Fig. 02 – Frederico Zuccaro (1541-1609) representando seu irmão Taddeo Zuccaro (1529-1566) grafitando o Pallacio Matteo sob os olhares dos seus cidadãos e recompensado pelas asas e trombetas da fama.

Os períodos clássicos - como o grego e do Renascimento Italiano - haviam atingido uma forma de arte na qual os seus autores tinham nome pessoal e eram aceitos e exerciam a sua arte de forma publica. Exerciam sua arte à luz do sol e sob um contrato digno. Contrato público e remunerado que oferecia as fachadas dos seus prédios e para identifica-los, humaniza-los e ser uma página aberta aos não podiam comprar literatura ou não alfabetizados. O resultado final deste projeto coletivo foi descrito por Miguel Ângelo descreveu (in Francisco de Holanda, 1955, p. 22)[1] como:

nasceis na província [Itália]  que é mãe e conservadora de todas as ciências e disciplinas, entre tantas relíquias dos vossos antigos, que em nenhuma outra parte se acham, que já de meninos, a qualquer cousa que a vossa inclinação ou gênio se inclina, topais ante os olhos pelas ruas muita parte daquelas, e costumados sois de pequenos a terdes vistas aquelas cousas que os velhos nunca viram noutros reinos”.



O artista renascentista não assinava as suas obras. Porém o seu nome era consagrado pela cultura italiana. Os seus nomes ganharam letra de forma na sistematização com os registros de Giorgio VASARI (1511-1574). Assim a maioria dos tratados da História de Arte perseguiu e se fixou em nomes e nas pessoas dos artistas. Porém os nomes dos artistas romanos exerciam a suas atividades de forma anônima. A cultura romana os percebia como escravos especializados e sob a heteronímia dos seus donos. Este paradigma persistiu ao longo da Idade Média e no Brasil até a Missão Artística Francesa.


[1] - HOLANDA, Francisco de (1517-1584) Diálogos de Roma: da pintura antiga. Prefácio de Manuel Mendes. Lisboa : Livraria Sá da Costa, 1955, 158 p

Fig. 03 – A autêntica técnica do “sgrafitto” que trabalha com várias camadas de cores de cimento e que são raspadas numa técnica que também na cerâmica onde recebe o nome de engobe. O resultado é pelo tempo em durar a parede, Os grafiteiros trabalhavam à luz do sol, sob a vista e aprovação admiração de todos os cidadãos e sob contratos pagos pelos donos dos imóveis.

Estes pichadores fecham-se sobre si mesmos e estão longe de qualquer sistema democrático. De outra parte os iniciados também formam um grupo de domina os códigos usados pelos produtores de TAG’S e PIXOS. Assim repetem-se as sociedades herméticas que agridem, depredam e passam por cima dos que tentam impor-lhes limites. Sociedades herméticas e clandestinas que se apropriam sem respeitas leis, contrato ou pactos sociais.

Por estas e outras razões não é possível aceitar como ARTE PÚBLICA apesar da escancarada visibilidade de seus “pichos” e “tag’s”. Também pela falta de contrato entre o autor  em “recebe” a obra existe um abismo. O mais grave em termos de arte que apenas estamos diante de um “produto” na maioria das vezes não desejado. Porém o que anula todo o trabalho em termos de arte é que os seus autores escamoteiam os seus ENTES sob este manto de um produto cujo original é provisório e perecível.

Fig. 04 – Uma fachada de um prédio na cidade de Praga recoberta com autêntica técnica do “sgrafitto”. Hoje um das atrações turística da cidade, um testemunho do seu tempo e uma ilustração da cultura deste que é aprovada admirada e preservada  todos os cidadãos e que lhes rende não só dividendos simbólicos e econômicos de turistas de todos os recantos do planeta.

Esta aura teve a sua origem que pode ser atribuída ao artista Leon Battista ALBERTI (1404-1472) com o mito do gênio. Ao menos ele foi um poderoso teórico que reforçou o nome do artista na forma da sua fama construída entre os seus observadores. O artista norte americano multimídia Andy WARHOL (1928-1987) reduziu esta fama aos 15 minutos e o distribuiu a todos. Já os seu protegido e discípulo, o porto-riquenho Jean Michel BASQUIAT (1960-1988), levou esta fama e sua assinatura para os muros urbanos o que se mestre reservava para superiores portáteis e nos padrões da indústria cultural.

Porém o artista BANSKY é radical e prefere permanecer no anonimato, apesar de suas obras valerem milhões, estarem espalhadas em muros públicos e com fama mundial. Prefere a divulgação do seu apelido e as obras apropriadas pelos meios numérico digitais.

As manifestações de artes visuais foram, em todos os tempos, apropriações do código vigente no seu meio cultural, expressão dos sentimentos daí decorrentes e busca do seu potencial observador.

Tavik Frantisek SIMON 1877-1942 - idílio o pastor - Sgrafito na fachada do atelier  do artista
Fig. 05 – A tradição dos grafiteiros trabalhando à luz do sol, sob a vista e aprovação admiração de todos os cidadãos foi cultivada pelo artista da Bohemia Tavik Frantisek SIMON (1877-1942). Ele usou a fachada do seu próprio atelier. Em vez do tradicional esgrafito de cores raspadas ele preferiu a palheta de todo as cores. Porém este pigmento  é aplicado numa camada enquanto a massa de cobertura estava ainda úmida o que faz com que a cor esteja integrada na parede. 

Potencialmente todos são artistas. Todos podem apropriar-se do código vigente no seu meio cultural e expressar os sentimentos daí decorrentes e buscar o seu potencial observador. O problema se aguça quando há necessidade de efetivar uma escolha neste vasto mundo de potencialidades dos caminhos que apontam em todas as direções. Toda escolha significa a perda das demais direções.

Quem recebe as obras destes artistas potenciais também pode interferir nesta escolha. O observador pode bloquear a manifestação do pretendente a artista. Bloqueia quando não recebe devido a numerosos traços perceptíveis no autor ou na sua obra.   

Tavik Frantisek SIMON 1877-1942 - Idílio o pastor - Esgrafito na fachada do atelier do próprio artista
Fig. 06 – A tradição dos grafiteiros trabalhando à luz do sol, sob a vista e aprovação admiração de todos os cidadãos foi cultivada pelo artista da Bohemia Tavik Frantisek SIMON (1877-1942). Ele usou a fachada do seu próprio atelier. 
Uma obra de arte se tiver por projeto de estar ao alcance direto do seu publico e sem mediações percorre o caminho sobre um fio da navalha. Normalmente é ela despencar deste fio para no mundo do trabalho onde encontra a sua entropia e não reconhecimento

 Porém a obra de arte sempre correu este risco. Colocada entre o aberto ideal e sua mensagem ser percebida por um observador desconhecido e colocado muitas gerações após o seu criador. A obra de arte já tinha este papel muito antes dos códigos escritos a quer nas cavernas, nas portas das cabanas ou nos monumentos megalíticos. Em todas as civilizações antigas teve este papel.

Fig. 07 –  Em Porto Alegre a tradição das fachadas das casas bávaras pintadas, dos grafiteiros trabalhando à luz do sol, sob a vista e aprovação admiração de todos os cidadãos foi cultivada pelo artista do artista de Munique Ferdinand Schlatter. Aqui um detalhe da casa dos Bávaros da SOGIPA pintada para a ocasião do centenário da Imigração Alemã.

O pacto social, cultural e estético do Renascimento italiano foi transformado em migalhas pelos processos concorrenciais do mais forte e agressivo do sistema capitalista. Traços deste sistema capitalista são perceptíveis nas obras geradas nestas circunstâncias. A sua natureza estética reflete a inquietação diante destas circunstâncias. Por mais cruéis, agressivas ou até feias elas não fogem da busca da sua verdade. Verdade que buscam na coerência e de adequação interna parcial ou total em si mesma. Traços no autor da obra perceptíveis como agressão a valores, desajuste aos hábitos ou de pura delinquência. Estas obras de arte são vigorosos documentos da ordem moral e ético das quais as obras  são portadores.

A singela busca da fama pode se constituir na pior corrupção da necessidade de o artista socializar, da publicidade à sua produção e angariar observadores para a sua obra. Só um verdadeiro mestre tem coragem para uma declaração destas e revela um exemplar testemunho do tempo absolutamente novo que estamos vivendo. Para manter viva a indústria cultural esta teve de estabelecer e manter o projeto que Bourdieu descreveu (1987: 104) que

“na Inglaterra com a vinda da era industrial, a relação entre artistas  o público modifica-se, o público é tratado de uma forma diferente em relação a era do artesanato, a produção artística torna-se uma entre as especializadas, a teoria da realidade superior da arte e o artista independente é um «gênio superior».

Fig. 08 – As obras romanas foram realizadas por artesões na total heteronímia e que trabalhavam para estetizar estes períodos de decadência e de luxo que Sêneca recriminava nos seus escrtitos. Repetiam motivos e técnicas da Grécia  clássicas às quais elas citavam sem atingir a alma e mentalidade que caracterizavam estes criadores visuais em permanente concorrências e excomunhões recíprocas e que os escritores gregos testemunhavam. 

 Se arte contemporânea ainda atesta este projeto na contramão as queimas das suas vítimas na FOGUEIRA das VAIDADES cuja luz ilumina muito empresário, mediador e critico de arte é que os artistas tomaram em suas mãos a força da arte. Exercem esta autonomia sabendo de todas as perdas que poderem provir desta escola.

 Se as obras romanas não testemunham as lúgubres e horrendas fogueiras de Nero para as sua noites de orgias e crueldades. Elas foram realizadas por artesões na total heteronímia, sem nome que história guardou e que trabalhavam para estetizar estes períodos de decadência. Os corações palpitantes nas mãos dos sacerdotes astecas ou as fogueiras da inquisição iluminando as noites da Idade Média também foram cobertos por estetizações de artista sem a autonomia para expressar o seu mundo.

O autêntico artista contemporâneo é competente nas mais impiedosas críticas,  mesmo que elas atinjam toda a vida e sua própria obra. Assim uma das mais comovedoras e honestas avaliações da abertura foi feita, este ano, pelo mestre Ado Malagoli, a o repórter Ivo Stigger:

Hoje daria zero para a minha obra, principalmente porque levei muito tempo para descobrir a verdadeira Arte, isto é, a Arte com direito de ser livre, alforriada de todas as escolas e academicismos”.      Zero Hora, 17 de julho de 1990, p.4 col. 4

Certamente trata-se de um artista que passou, se formou e soube orientar os seus estudantes universitários para o exercício perene do hábito do hábito intelectual e estético.

Fig. 09 –. O estágio natural seria o pictograma como a primitiva escrita  já desenvolvida pelos maias no atual México  O sonho de uma sociedade cuja subsistência física dependia da caça e cuja mentalidade estava voltado e representava apenas os animais que podiam satisfazer esta necessidade básica estava dando lugar para primitivos agricultores. O tabu da representação da representação naturalista estava dando lugar para o totem da figura humana. Porém como totem estava longe figura natural. Esta era representada mais como uma sombra ou símbolo e uma silhueta. Assim esta figura humana pode ser interpreta  como TAGS’S ou PIXOS da pré-história humana mais recente e desenvolvido no atual território do Brasil.

Na contemporaneidade a pintura ganhou novamente as fachadas pela ação agressiva dos grafiteiros. Se esta manifestação encontra argumentos que a condenem pela sua posição estética, agressão patrimonial e pelo seu hermetismo das suas mensagens anárquica individualista, encontra argumentos que explique esta manifestação agressiva. Entre eles a mercantilização, mitificação de gênios e mediações, atravessadores e tuteladores de toda ordem que se apropriaram do sistema de arte. Mediadores, atravessadores e tuteladores que incluem “os simpáticos”  e excluem os “não simpáticos”. A reação daqueles “não simpáticos” é expressa pelos “pichos”  silenciosos, noturnos e individualistas. Estes “pichos” e “tag’s”  substituem a voz e a vez ações e atitudes dos pichadores urbanos.

Os braços cruzados dos impotentes, tolerantes e atônitos poderes constituídos pelos mediadores, atravessadores e tuteladores do poder público perdem cada vez mais terrenos em toda a cultura ocidental. O seu agressivo meio urbano encontra cada vez mais as respostas em pichações simetricamente cada vez mais agressivas. Pichações tão vazias, anárquicas e agressivas na mesma medida das agressões, faltando-lhes humanismo e carecem de um pacto social significativa que produz estes monstros dos dois lados deste muro erguido pelos mediadores, atravessadores e tuteladores.

Fig. 10 – A representação da  máscara mão humana como um "TAG" ou "PICHO" obtido com o sopro de um pó vermelho sobre a parede úmida de uma caverna da pré-história  de uma ausente e sonho de uma sociedade cuja subsistência física dependia da caça e cuja mentalidade estava voltado e representava apenas os animais que podiam satisfazer esta necessidade básica. Não há vegetais, nem paisagem muito menos a figura humana que podia ser interpretada como objeto de caça.

O artista visual reage e coloca as suas obras fora do sistema convencional de arte e do circulo de ferro do mercado. Realiza esta façanha voluntária e intencionalmente reconquistando a sua autonomia do rebanho que vai para o matadouro do sistema de artes. Subsidiariamente estes criadores fogem do alcance dos alfinetes nas suas costas e classificando-os em estilos. Fogem dos mitos redutores de gênio largamente disseminado pela indústria cultural e pelo sistema de artes. O teórico Argan, arquiteto e prefeito comunista de Roma, afirmou (1992: 40) que

“foi somente no início do nosso século que os grandes artistas, com uma surpreendente unanimidade, começaram a protestar contra o nome «gênio» para insistir no ofício, da competência e nas relações entre arte e artesanato. O artista, mesmo quando empresta sua obra à autoridade constituída, exerce uma função de guia no interior da sua esfera social, a do trabalho”. 

Assim os artistas podem novamente serem eles mesmos com todas as perdas que isto importa, inclusive de sua própria aura.

Fig. 11 – Uma sociedade caçadores cuja subsistência física dependia daquilo que ela representava. Esta representação pictográfica irá gerar no estagio da agricultura para pictogramas base das primeiras escritas  cuja mentalidade estava voltado e apenas os animais que podiam satisfazer esta necessidade básica. Não há vegetais, nem paisagem muito menos a figura humanaque podia ser interpretada como objeto de caça.
 Quando os TAGS’S e PIXOS : pichadores e pixadores


Porém a greve dos observadores poder ser observada pelos  braços cruzados dos impotentes, tolerantes e atônitos poderes constituídos pelos mediadores, atravessadores e tuteladores do poder público perdem cada vez mais terreno em toda a cultura ocidental. O seu agressivo meio urbano encontra cada vez mais as respostas em pichações simetricamente cada vez mais agressivas. Pichações tão vazias, anárquicas e agressivas na mesma medida das agressões, faltando-lhes humanismo e carecem de um pacto social significativa que produz estes monstros dos dois lados deste muro erguido pelos mediadores, atravessadores e tuteladores.

Fig. 12 – Os pichadores há 30.000 anos na caverna de Chauvet, no sul da França,  num fotograma do filme ‘Caverna dos Sonhos Esquecidos”  de Werner Herzog e colocado no mercado cultural como peça industrial.  O sonho de uma sociedade cuja subsistência física dependia da caça e cuja mentalidade estava voltado e representava apenas os animais que podiam satisfazer esta necessidade básica. Não há vegetais, nem paisagem muito menos a figura humanaque podia ser interpretada como objeto de caça.

Cabe ao autor da obra a tarefa de transformar o tabu em totem e demonstrar outros caminhos e percepções.  É necessários que os "tag’s" e "pichos" constituem uma apropriação simbólica dos lugar e dos imóveis. Seria um capítulos a parte esta guerra de apropriação de áreas que eles consideram de prestígio e posse individual.

De um lado Moulin afirma (1995: 127)  que “de todas as categorias sócio profissionais, a do artista é sem dúvida o mais definido na medida em que os critérios que podem servir são a herança  multissecular”

Porém toda esta herança multissecular é anulada sem a fala, a exposição das mentalidades, os contratos que transformam contradições em complementariedades o terreno das forças da arte correm o risco de caírem como prêmio no terreno do mais esperto e economicamente forte. Mesmo as leis - contra e favor - não fazem, neste caso, o artista.

Resta a esperança na alfabetização deste criador nos nas circunstâncias para que ele as tenha presente no momento de sua criação. Certamente para isto são necessárias instituições coerentes e que já possuem um histórico que Durand descreveu (1989: 59) quando

“Antoine Prost observa que a organização de escolas para a formação de artesões e operários correspondeu a uma fase em que, com a destruição do artesanato pela indústria capitalista, e com a correlata desorganização das categorias de artesões através da aprendizagem nos ateliers dos mestres credenciados, abriu-se a necessidade de nova solução institucional".

De outro lado este projeto e a apropriação desta nova obra de arte necessita o preparo do observador. Certamente não se trata de um público acostumado a receber tudo mediado, editado e colocado de forma linear e de sentido unívoco sempre esteve distante da competência de se sentir à vontade da autêntica obra de arte. Uma obra de arte de qualquer natureza é sempre portador de um mundo e que possui parcas conexões com outros repertório, mundos e paradigmas. Se um de lado a palavra dirige os sentidos humanos há necessidade de alguém honesto e coerente que tenha, de fato, acesso ao mundo do qual pretende ser intérprete e do outro domine as técnicas do discurso. Talvez este interprete coerente e honesto seja mais raros que os produtores de arte.

-Pichação Av.Sertório Porto Alegre foto de Círio Simon em   18.02.2013
Fig. 13 – O arsenal iconográfico usado pelos pichadores pode inclui os TAGS’S e PIXOS : numa estrutura geométrica e os índices visuais os mais próximo possíveis da realidade da indústria cultural e índices numéricos digitais de uma geração 4G. O seu autor abdica da identificação,  assinatura e de data e lugar. A sua obra  é intencionalmente efêmera, feita de madrugada a luz dos luminárias, fora do sistema de arte e sem financiamento. A sua mochila ceramente está carregada de cartuchos de spray colorido. O seu publico são eventuais observadores e que necessita adivinhar o código e o seu sentido

A causa desta dificuldade já era apontada por Nietzsche quando escreveu (2000: 134) que “a arte não pode ter sua missão na cultura e formação, mas seu fim deve ser alguém mais elevado que sobre passe a humanidade. Com isso deve satisfazer-se o artista. É o único inútil, no sentido mais temerário”.

De um lado o ideal para a obra é que ela esteja aberta ao alcance direto do seu publico e sem mediações. Porém, de outro lado,  o alto  pacto social, cultural e estético do Renascimento italiano do artista com assinatura e contrato social foi transformado em migalhas pelos processos concorrenciais do mais forte e agressivo do sistema capitalista e pós modernidade. O que era o objetivo da obra de arte muito antes dos códigos escritos quer nas cavernas, nas portas das cabanas ou nos monumentos megalíticos tornou-se um mundo hermético para poucos iniciados. Se em todas as civilizações antigas teve este papel, o artista voltou para a noite do tempo, para o anonimato voluntário. Refugiou-se  dos agressivos e humilhantes  contratos, dos prêmios em cima de...comandados pelos que acham mais espertos e fortes. Refugiou-se  para a noite, para o anonimato fugindo de um sistema e de um mercado de arte que não respeita o seu momento de criação individual Produz para um pequeno grupo de iniciados e de um publico genérico. Busca dispensar os mediadores, atravessadores e aqueles que desejam tutelar a sua criação, furtar-lhe a fama e a propriedade mental e física das suas obras.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

ARGAN, Giulio Carlo (1909-1992) . História da arte como história da cidade.   São Paulo :  Martins Fontes. 1992.
.BOURDIEU, Pierre ( *1.8.1930 - †23.1.2002) Economia das trocas simbólicas. São Paulo: EDUSP- Perspectiva,  1987.  361p.

DURAND, José Carlos, Arte, Privilégio e Distinção: Artes plásticas, arquitetura e   classe dirigente no Brasil, 1855/1985.São Paulo : Perspectiva: EDUSP 1989. 307p.

MOULIN, Raymonde. L’artiste,  l’institution et le marché. Paris: Flammarion, 1995. 437 p.
         
NIETZSCHE, Frederico Guillermo (1844-1900). .La génesis da la moral. Buenos Aires :         Tor, s/d, 160 p. e  A gênese da moral (3a. ed). São Paulo : Moraes, 1991. 113 p.

OLIVEN, Ruben George. VA parte e o todo: a diversidade cultural no Brasil - Nação.  Petrópolis: Vozes 1992.  143p..


FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS



VILLA MEDICI ACADEMIA da FRANÇA em ROMA


_ Revista


Fachadas com sgrafitto





TADDEO ZUCCARO aos 18 anos pinta o palácio Mattei




Casa dos bávaros Sogipa




PRAGA Sgrafitto





Tavik Frantisek SIMON 1877-1942







Leon Battista ALBERTI (1404-1472)




Giorgio VASARI (1511-1574)




Andy WARHOL (1928-1987)




Jean Michel BASQUIAT (1960-1988)




BANSKY ARTIST ANÔNIMO





TAGS’S e PIXOS : pichadores e pixadores



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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

058 - ISTO é ARTE


WALTER ZANINI
*1925 - +2013
A escrita só é possível quando um sujeito a sustenta:  
ela e as suas consequências ,   Compagnon, 1996, p. 65/9.

Fig. 01 – Walter Zanini exerceu, ao seu modo, a difícil mediação nas artes visuais e no âmbito do hábito da integridade intelectual. As instituições, nas quais trabalhou e orientou, estão aí para contar o quanto ele foi produtivo para as artes de toda cultura brasileira. O seu hábito de integridade intelectual contrasta no meio de atravessadores, mediadores que tutelam cargos em cujas funções revelam-se verdadeiras nulidades. Carecendo de um projeto para as efetivas funções, para as quais estes cargos foram criados, mais atormentam e atrapalham do que ajudam. Mesmo com fortes orçamentos, malbaratam fortunas reunidas com a maior boa vontade.

Se alguém sabia e sustentava “O QUE é Arte” com as suas circunstâncias históricas brasileiras, este alguém respondia pelo nome Walter Zanini. Jamais alguém ficará sabendo quem foi Walter Zanini. Sabemos dele é o que ele foi[1]. No seu modo de SER Zanini abriu generosas portas e janelas para o seu ENTE. Generosidade visível e materializada nas suas orientações, pesquisas, curadores, nas palestras  e nas suas aulas nas quais nunca poupou as energias mais profundas  com quais fez circular o poder da Arte. Não foi produtor de obras de Arte. Porém conhecendo os caminhos abertos por outros ENTES em direção da Arte fez-se guia abalizado daquilo que é mais difícil, improvável e gratuito para a compreensão humana.  A inteligência estética brasileira perde, com o seu desaparecimento físico, um dos expoentes em ser companheiro dos menos experientes no caminho que ele havia realizado. Com o registro desta experiência a memória nacional ganha um incomensurável acervo de contribuições institucionais, obras e produções pessoais no campo das forças da Arte no Brasil.


[1] Hannah Arendt registrou  (1983: 244) como: “quem é, ou quem foi alguém, não o sabemos a não ser conhecendo a história da qual ele é o herói- dito de outra forma - a sua biografia; todo o resto do que sabemos dele, incluindo aí a sua obra que deixou, nos diz somente o que ele é ou o que ele era”.


Fig. 02 – Evidente que as obras gerais, de qualquer área humana ou técnica, são competentes para enumerar e sumariar algumas tendências importantes para a mentalidade do momento e de quem as elabora.  No momento seguinte o própria campo de saberes ali enfeixados  aponta para outros rumos. A pós-modernidade enveredou para as extensas e infindáveis enumerações captadas, elaboradas e reproduzidas pelos meios numéricos digitais. A obra HISTÒRIA GERAL da ARTE no BRASL coordenada por   Walter Zanini é um elemento indispensável nestas extensas enumerações  dos eventos, tendências e obras de Artes Visuais das quais a pós-modernidade pode incorporar, elaborar e reproduzir.

Constitui uma temeridade criar uma narrativa que tenha por tema o incomensurável acervo das contribuições de Walter Zanini. Esta narrativa entra na contradição pela proximidade deste expoente contra  remetê-lo para ao tempo distante. Esta narrativa possui todos os riscos da mitificação de esquemas mentais laudatórios na proximidade empírica contra uma escrita  mais documentada e impessoal. De um lado colher a ocasião significa confusão e parcialidade do outro a imparcialidade e a procrastinação desta narrativa significa a  ameaça do esquecimento. Ameaça reforçada pela falta de arquivos, as sistemáticas destruições e as rupturas e fragmentações. O meio termo pode ser de um ecletismo atroz e um derradeiro e definitivo desaparecimento.

Fig. 03 – A coordenação de Walter Zanini produziu, ajudado por figuras expressivas, textos e imagens compendiadas nos dois volumes da obra impressa HISTÒRIA GERAL da ARTE no BRASL. Esta obra marcou época e  se oferece para a pós-modernidade para o seu conteúdo ser incorporado, elaborado, criticado e desafiar a que produzam  enumerações  que caracterizam  eventos, tendências e obras de Artes Visuais sob outros paradigmas concorrentes.

Diante destas três alternativos resta “sustentar esta narrativa e as suas consequências” no conselho de Compagnon. 

Walter Zanini pertenceu ao tempo e conviveu com ele como historiador. Ele também “situa-se entre o tempo que continua e ao mesmo tempo muda e gera problemas de investigação” conforme Marc Bloch (1976: 30, 60). Se o fluxo do tempo terminou para este profissional, a sua obra dirá dos problemas de investigação irá suscitar.

HILDEBRANDT Adolf von (1847-1921) - Túmulo família Dreher 1919- Cemitério São José Porto Alegre - RS
Fig. 04 – O interesse de Walter Zanini não se limitou ao universo estético nacional. A cultura brasileira não pode se fixar num tipo único e definitivo de interesse de uma identidade nacional postiça e imposta como no seu período colonial. Uma Arte cujas fontes estão na soma de tantas etnias, culturas sem fim e de  estágios culturais próprias do coletador e passando por todos os degraus de desenvolvimento técnico até a mais alta erudição possível pode-se dar ao luxo de contemplar e sentir também ao obra de Adolph von Hildebrandt que Walter Zanini visitou e estudou em Porto Alegre.  Esta iniciativa de Zanini diz da capacidade incorporá-la sem se confundir com ela e se transformar num ícone.

As contradições, os bretes culturais e excomunhões recíprocas não surpreendiam este paulista com uma sólida formação erudita. Com uma ampla visão estética Zanini não entrava nos atoleiros nos quais presas algumas almas penadas incapazes de exercerem rupturas intelectuais e culturais. Bretes como os denunciados por Durand quando escreveu (1989: 5) que:

 “a partir da conversão ao modernismo dos intelectuais mais ativos no jornalismo cultural e na crítica de arte, a história do campo das artes plásticas ficou clivado por uma espécie de periodização maniqueísta na qual tudo o que se refere à fase acadêmica como que lembra conformismo, subserviência ao estrangeiro e conservação estética e tudo o que diz respeito ao advento do modernismo como que se recobre de criatividade, ousadia e autenticidade nacional”.

  Contra esta conservação estética a biografia de Walter Zanini encontra-se coerente no fluxo do seu tempo. A sua obra é continuação do seu pensamento. Pensamento que ele formalizou nas instituições destinadas para um tempo indeterminado, na sua obra escrita documentada que circula e em parte está impressa.

Fig. 05 – O administrador cultural Walter Zanini conferiu uma notável estrutura administrativa ao museu da Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e o conectou às suas memoráveis curadorias das legendárias Bienais de São Paulo.  Agora podem ser avaliadas após o seu desaparecimento físico enquanto ambas continua. Um dos índices mais seguros dos acertos no meio de dúvidas, concorrências de alternativas possíveis na época é o fato que ambas ingressaram  no século XXI, aumentaram e estão em plena fase de reprodução em tempos bem distintos.

Nesta obra documentada há necessidade de visitar, observar e institucionalizar o que não foi para ser impresso. O seu pensamento seguiu o caminho do hábito da integridade intelectual onde é possível localizar o crítico. A sua obra no âmbito institucional teve por centro a identidade da disciplina de História da Arte.

Os seus estudos, as suas pesquisas, os seus trabalhos e suas obras foram realizadas num ambiente que sabia carregado de conceitos e hábitos arcaicos como Zanini registrou (1997: 27)

a História da Arte no Brasil recebeu com defasagens notórias a influência dos principais métodos científicos que assinalaram sua ordenação científica na Europa a partir dos últimos anos do século XIX. O alargamento de seu interesse, no segundo pós guerra e sobretudo aquele em nível de carreira universitária – alterará a situação anterior

Esta esperança universitária é sustentada na cultura ocidental pela Universidade de Bolonha, até pela sua tardia introdução efetiva para todo território nacional em 1931.

Fig. 06 – O tio artista Mario Zanini mostrou na prática para o mediador de artes Walter Zanini as exigências das forças estéticas que permitem ao criador de arte de ser o mais inútil dos temerários. Temeridade que permite extrair e mostrar os traços do sobre humano que só ele sabe exercer, conforme sentenciou Nietzsche. Se a Filosofia nasceu do espanto, o crítico de arte, o historiador e cronista de arte progridem de espanto em espanto diante de alguns seres privilegiados que exercem  esta força de se sobreporem ao humano e à Natureza. Se for o ente familiar, mais sentida, aprendida e aplicada será a lição. 

A arte possui um caminho particularmente difícil  em relação à autêntica instituição universitária brasileira. Especialmente de uma universidade que reduz, para se manter, mental e materialmente, aos já debilitados cursos ditos superiores. Cursos que estão longe de  universitário, apresentam os esquálidos esqueletos que se confessam estritamente profissionalizantes no seu funcionamento prático. Diante de um campo de saber como a arte estes cursos superiores profissionalizantes não toleram  qualquer intromissão de um paradigma que não seja utilitário e de retorno monetário imediato.

 Walter Zanini estava consciente dos estragos da tardia introdução das disciplinas da História da Arte, da sua rala distribuição geográfica e da carência de uma massa crítica qualificada. Isto sem falar  da falta de um apoio decisivo de um projeto civilizatório compensador da violência, da heteronímia  de um pacto social autêntico que nunca existiu. Consciente de uma cultura que acha mais cômodo importar leis e bacalhau seco de outras culturas que ele supõe infinitamente superiores, sem se importar como estas culturas resolveram os seus problemas.

Experiente Zanini escreveu (1997: 21) que:

a História da Arte é disciplina sem um claro espaço de desenvolvimento básico na universidade brasileira [...] uma tal situação não pode ser simplesmente redimida em estágios de especialização ou pós-graduação. É preciso, portanto, que se transforme esse quadro assim sedimentado e não mais toleráveis”.

Apesar disto Walter Zanini foi um qualificado medidor, tutelar, professor e intelectual, no sistema de arte do Brasil. Dificuldades das quais ele estava consciente das causas e efeitos e que, no contraste, só ressaltam a sua figura humana, moral e intelectual.  Fez-se mediador qualificado entre o artista produtor e o se potencial público. Tutelou instituições de Arte, conhecendo as suas competências e limites muito antes de assumir a função. Foi professor de estudantes a quem não regateava o seu vasto conhecimento e intelectual resultante de pesquisas e de interações de toda ordem. Porém isto só era possível na medida em que o seu ENTE derramava no seu SER estas qualidade. Um ENTE que ninguém conhece quem foi, mas não deixava dúvidas sobre o seu modo de SER.


Fig. 07 – O olhar aguçado de Walter Zanini estava  atento para as forças que movem as artes visuais e ao hábito da integridade intelectual exigidos por quem quiser exercer um cargo uma carreira universitária. Porém não geraram nenhuma aura acadêmica. Ele podia ser surpreendido nas mais informais interações com o seu público e estudantes antes e após as suas rigorosas e documentadas explanações nos ritos acadêmicos. O seu exemplo arrastava para o seu repertório construído com as mais eruditas e seguras fontes.

Walter sabia que a Arte seria impossível se todas as representações totalizantes fossem rigorosos clones das outras. O respeito a estes ciúmes entre paradigma concorrentes pela hegemonia dos seus respectivo auditórios,  levou o esteta paulista a estudar os fenômenos da atualidade para extensas e infindáveis enumerações da pós-modernidade. Formado ainda na era industrial cheias de normativas totalitárias teve condições de realizar rupturas epistêmicas e estéticas das quais saiu por cima. No seu modo de SER evidenciava que era portador de uma cosmovisão estética que busca a integração de tudo e de todos no seu âmbito transformando contradições em complementariedades. De outra parte sabia que a cada cosmovisão correspondem numerosas outras que também são globalizantes e praticam excomunhões daquelas concorrentes.

Resta desejar longa vida ao pensamento de Walter Zanini. Pensamento que permanece na medida do cuidado e da atenção com que foi construído, entregue aos seus leitores e aos usuários das instituições ás quais dedicou o melhor de sua existência física. Pensamento a ser preservado, sistematizado e socializado com suportes institucionais na linha da Coleção Brasiliana da USP.

Na síntese final é possível atribuir ao WALTER ZANINI aquilo que Compagnon escreveu (1996, p. 65/9) que ele foi “o sujeito que soube sustentar a sua escrita e as suas consequências”, mesmo quando não está mais presente fisicamente. 
FONTES IMPRESSAS

BLOCH, Marc (1886-1944). Introdução à História. (3ª ed).Lisboa :Europa- América  1976  179 p.

COMPAGNON, Antoine.  O trabalho da citação. Belo Horizonte : Editora UFMG.           1996.  115p.

DURAND, José Carlos, Arte, Privilégio e Distinção: Artes plásticas, arquitetura e classe dirigente no Brasil, 1855/1985.São Paulo : Perspectiva: EDUSP 1989. 307p.

ZANINI Walter (1925-2013) História Geral da Arte no Brasil  (Walter Zanini Cord) São Paulo : Instituto Walther Moreira Salles, 1983 2 v. il

---------- A Arte no Brasil nas décadas de 1930-1940: O Grupo Santa Helena  São Paulo : EDUSP, 1991 191 p. il

----------Considerações preliminares sobre a História da Arte no Brasil - in 180 Anos da Escola de Belas Artes – Anais do Seminário EBA 180 Rio de Janeiro, UFRJ, 1997,  pp.21-32


FONTES NUMÈRICAS DIGITAIS

MAC USP


Bienal São Paulo 1981




+ OBRAS de WALTER ZANINI


Arte perde um crítico

CORREO do POVO ANO 118  Nº 122 PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 30 DE JANEIRO DE 2013 arte&agenda

FOLHA de SÂO PAULO


GAZETA do POVO


UOL


USP


PESQUISA


L’AVENIR de l’ART



GLOBO


Walter sobrinho de Mário Zanini -1907-1971

http://www.slideshare.net/deniselugli2/zanini-mrio



WALTER ZANINI e o MAC- USP


[+ vÍdeo ]

Texto de:

JAREMTCHUK, Dária -  MAC do ZANINI: o museu crítico do museu in  em INSTITUIÇÔES de ARTE (1ª ed.) Porto Alegre: ZOUK. 2012 pp.69-86                        ISBN: 978-85-8049-026-8

TEXTO DISPONÍVEL na INTERNET em:



Zanini não foi um olhar vazio e fixo apenas nas obras de arte



Temas paralelos desenvolvidos pelo autor


Natureza dos paradigmas concorrentes:

Glossário e Algumas reflexões do autor deste blog em relação aos campos da História, Arte e Biologia.
História: os fatos que chegam ao conhecimento coletivo são aqueles mais dramáticos aos sentidos humanos. Dai a importância da Arte como índice sensorial dos objetivos e dos objetos de uma civilização dada da cultura humana. Arte em companhia da História, que Marc Bloch (1976 : 30, 60) “situa-se entre o tempo que continua e ao mesmo tempo muda gera problemas de investigação”. E que para Hannah Arendt representa (1983, p. 297) o:  conceito central das duas ciências verdadeiramente novas da época moderna, a ciência natural e histórica, é o conceito de processo, que está fundada sobre uma experiência humana: a da ação. É apenas porque nós sabemos capazes de agir, de nos destacar do processo, que nós podemos conceber, e a História e a natureza como sistemas de um processo”.  Arte e História que produzem, recolhem e divulgam informações provenientes no atrito dos incontáveis objetos na sua tensão com os objetivos humanos. Informações fidedignas e coerentes com o aqui e agora constituindo uma fonte da luz que orienta para o funcionamento do Estado. Este atrito alimenta-se das energias provenientes das tensões resultantes das percepções históricas entre a diacronia e a sincronia. Na simultaneidade e do acúmulo do presente (sincronia) interferem poderosamente as lembranças e heranças de um passado imutável e os receios, incertezas de um porvir sem garantias (diacronia). O arquiteto e historiador de Arte e prefeito comunista de Giulio Argan escreveu (1977: 7) que “o pensamento histórico nos leva a emitir juízos que nos permitem enfrentar o tumultuoso presente com a força que nos dão as experiências racionalizadas; ainda que o juízo enquanto tal, dando o fato passado como totalmente acabado, o fixa no seu tempo e seu espaço, diferente do aqui e do agora do presente. A história é «catárquica» na medida em que nos assegura que o passado é o passado e não pode repetir-se ou retornar, não existindo razão alguma para refazer seu espírito, dando-nos a experiência, contudo liberta-nos da complexidade do passado, confirma a plenitude da nossa responsabilidade para com o presente”. Este distanciamento também esta presente em Hannah Arendt quando escreveu (1983: 297) que pelo fato de sabermos capazes de agir, separar-nos do processo, nos podemos conceber, a história e natureza como sistemas de um processo”. Para Chartier a História não é uma mera contemplação  externa do passado do outro lado de um cristal, pois, segundo ele (1998: 104) “a história produz um discurso, mas ao mesmo tempo possibilidade de estabelecer regras permitindo controlar operações proporcionais à produção de objetos determinados”.

ARENDT, Hannah (1907-1975). Condition de l’homme moderne. Londres  :  Calmann-Lévy, 1983.

ARGAN, Giulio Carlo (1909-1992) . História da arte como história da cidade.   São Paulo :  Martins Fontes. 1977.

BLOCH, Marc (1886-1944). Introdução à História. (3ª ed).Lisboa :Europa- América  1976  179 p.

CHARTIER,  Roger.   Au bord de la falaise:  l´histoire entre certitudes et inquiétude. Paris  : Albin Michel, 1998.  293p.

História da Arte: O universo das severas prescrições da era agrícola e industrial é compatível com o universo as exaustivas descrições da era numérica digital informatizada. Exaustivas descrições que sempre formaram as narrativas da História da Arte.  Heidegger esclarece (1992: 62) “como instauração, a arte é essencialmente histórica. Isto não significa apenas: a arte tem uma história, no sentido exterior de ela ocorrer também nas mudanças dos tempos, ao lado de muitos outros fenômenos, e de aí se ver sujeito a transformações e perecer, oferecendo à história aspectos mutáveis. A arte é histórica, no sentido essencial de que funda a História e, mais propriamente, no sentido indicado” Estes dois universos mentais são complementares com os seus respectivos universos empíricos nos quais os seus poderes micro e macro potencialmente podem celebrar alianças, contratos e pacto. Neste Giulio Argan percebe (1992: 40) que  a História da Arte e a única história do agir humano tanto no aspecto da contemplação como no do trabalho” . Esta contemplação aliada e complementar do trabalho. Contemplação e trabalho que se reforçam- na era informatizada.  Contemplação e trabalho complementares que potencializam e são o conteúdo das potencialidades e dos vínculos que ligam às células micros (municípios) ao macro da cabeça nacional e internacional (Brasília- Blocos - ONU).
HEIDEGGER, Martin (189-1976). Origem da obra de arte. Lisboa: Edições 70,  1992.  73 p
História e biologia: Primordialmente insiste-se para que as energias diferenciadoras e libertárias tenham condições para fazer fluir as suas energias coletivas, inclusive para constituírem um grande organismo nacional, sem se confundir com ele. Estas energias primordiais mostram uma unidade espantosa quando aceitamos as observações dos biólogos Maturana e Varela quando escreveram (1996: 48) que   nós, como seres vivos temos uma história: somos descendentes, por reprodução, não só dos nossos antepassados humanos, mas de antepassados muitos diferentes que se estendem no passado até três milhões de anos. A outra é que, como organismos, somos seres multicelulares e todas as nossas células são descendentes por reprodução da célula particular que se formou ao unir-se um óvulo com um espermatozoide e nos originou. A reprodução está, por tanto, intrometida na nossa história em relação a nós como seres humanos e em relação a nossos componentes celulares individuais, o que curiosamente, faz de nós e nossa células seres da mesma idade ancestral. Mais ainda, desde um ponto de vista histórico, o anterior é válido para todos os seres vivos e todas as células contemporâneas: compartilhamos a mesma idade ancestral”. A espécie humana possui uma origem, um rumo e uma possível ancoragem num patrimônio comum nesta mesma idade ancestral comum. Apesar de todo o aparente caos e desorientação que o individuo, entregue a si mesmo, tenha condições para perceber as competências e os limites do mundo pontual que o cerca aqui e agora. Inclusive o  organismo nacional no qual este ser humano aparentemente isolado e único, tenha maestria para sentir, conviver, modificar e qualificar o seu pertencimento esta História da espécie. 
MATURANA R., Humberto (1928-) e VARELA. Francisco (1946-). El árbol del  conocimiento: las bases biológicas del conocimiento humano. Madrid : Unigraf. 1996a, 219p.

Historiador:  Aristóteles advertia (1972: 211) a quem busca a ciência para compreender o espaço empírico. Nesta busca dialética “é absurdo procurar ao mesmo tempo a ciência e o método da ciência. Nenhum deles é fácil de aprender, pois, nem o rigor matemático se deve exigir em todas as coisas, mas somente naquelas que não tem matéria”. O Poder Originário possui matéria e circula nas ações dos seus agentes. Ao apresentar matérias e ações este autor vale-se do pensamento de Marc Bloch quando ele afirma (1976: 29) que “o historiador pensa tanto o humano como o tempo”. Neste pensar, tanto o humano como o tempo, Cabral de Melo distingue (1995:14) “os amadores discutem estratégia, mas os profissionais preferem falar de logística, bem se poderia dizer que os historiadores preferem falar de documentos, deixando a outros o cuidado de descobrir o sentido da história”. Sem discutir ou avaliar, se o autor é amador ou profissional, ele busca, nos seus limites e parcas competências, um conhecimento e uma vontade para que ele como cidadão usufrua também o seu direito ao seu poder, sem subterfúgios ou corrupções. Nietzsche solicitou (2000: 27)  ao leitores do seu texto ‘o futuro das nossas escolasespero do leitor três qualidades: 1) - deve ser tranquilo e ler sem pressa; 2) - não deve fazer intervir constantemente sua pessoa e a sua cultura, e 3) - não tem direito de esperar – quase como resultado – projetos”.
ARISTÓTELES (384-322). Tópicos.   ; dos argumentos sofísticos (2ª ed.) São Paulo : Abril Cultural. 1972, 197 p.

CABRAL DE MELLO, Evaldo. A fronda dos mazombos. São Paulo : Companhia das         Letras, 1995. 530p.

NIETZSCHE, Frederico Guillermo (1844-1900). Sobre el porvenir de nuestras escuelas. Barcelona: Tusquets, 2000. 179.
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