sexta-feira, 11 de março de 2011

ISTO NÃO É ARTE - 09

Antes de ler este artigo, convém consultar:

http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/isto-nao-e-arte-01.html

CIÊNCIA NÃO É ARTE.

O mundo da RAZÃO possui as suas próprias competências. Estas competências se expressam pela CIÊNCIA e pela FILOSOFIA Natural. A humanidade deve ao mundo tecnológico a sua atual configuração, modo de pensar e de se expressar. Contudo esta autonomia da CIÊNCIA possui competência e limites. Os mais preparados e honestos cientistas reconhecem esta competência e os limites do seu universo. Buscam ampliar este universo por meio da ARTE, respeitando igualmente as suas competências e os seus limites. É notável a forma como o cientista Albert de Einstein (1879-955) harmonizava a CIÊNCIA e a ARTE. Nesta harmonização e respeito ele usufruía e estimulava o desenvolvimento destes dois universos distintos. Com o seu violino cultivava a ARTE, harmonizava e humanizava a CIÊNCIA. A Música o ajudava encontrar e compreender os limites e as competências de ambas, sem forçar ecletismos.


http://en.wikipedia.org/wiki/File:Akropolis_by_Leo_von_Klenze-award-3.jpg

Fig. 01 – Reconstrução ideal da Acrópole de Atenas (1846) - Leo von KLENZE (1784-1864)


O ecletismo é uma justificativa fácil para os apressados e, até, para mal-intencionados. No prefácio da Filosofia da Arte[1] Hipólito Taine (1828-1873). encontra-se uma amostra desta justificativa fácil. Neste prefácio ele enunciava o ecletismo entre Arte e a Natureza escrevendo que ambas estão “sujeitas a condições precisas e leis determinadas”. Desta esperança ele construiu a sua metodologia. “ como se estuda a temperatura física para compreender a aparição de tal ou qual espécie de planta, o milho, a aveia, o aloé, ou o abeto, deves-se estudar a temperatura moral para compreender o aparecimento de qualquer espécies de arte. As produções do espírito humano como aquelas da Natureza, só podem-se explicar-se pelo meio que as produz” “(Taine 1945, pp.25-26). O seu ecletismo força e conduz as suas especulações “o movimento geral que aproxima cada dia mais as ciências morais com as ciências da natureza e, ao mesmo tempo comunica às primeiras os princípios, procedimentos e direções das segundas, e lhes confere solidez idêntica e lhes assegura progressos iguais “ (Taine 1945, pp.27-28). Contudo o tempo não perdoou esta pressa e este ecletismo forçado. Taine foi esquecido e poucos seguem o seu caminho positivista.


Já o pintor e filósofo paraibano, Pedro Américo de Figueiredo e Mello (1843-1905), fez distinções e lançou contraditórios ao vitorioso positivismo da sua época. Ele doutorou-se em Filosofia pela Universidade Livre de Bruxelas, com a tese « LA SCIENCE et les SYSTÈMES: questions d´histoire et de philosophie naturelle ». [2]. A tese foi apresentada publicamente por Pedro Américo em 13 de janeiro de 1869, com a assistência de 2.000 pessoas e defendida, por ele, a longo de 3 horas, diante de qualificada banca. (Silva, 2006 pp. 99 e 100). Banca que se sentia incomodada, nas suas convicções positivistas, pelo jovem candidato brasileiro de 26 anos, Na época em que Taine ainda estava vivo e era considerado a glória positivista, logo após Augusto Comte (1798-1857), Pedro Américo registrava numerosas distinções entre Arte e Ciência,

É possível ler na tese do jovem candidato a doutorando, entre outras distinções:

“o friso de Partenon, o Júpiter Olímpico, e tantas outras obras de arte, permaneceram superiores a todos os esforços que se fizeram para igualá-lo. Enquanto a filosofia dos gregos, ideal e sublime, parece diminuir, mais e mais, aos olhos das gerações modernas. Isto se deve ao fato de que a arte grega construiu a sua arte sobre a natureza, enquanto os filósofos a construíram sobre o ideal. As duas eram grandes, pois as duas haviam sido convocados para sustentar a liberdade de um grande povo. Contudo a grandeza da arte repousava sobre dados que se encontram em todas as épocas, dados positivos,impessoais e observáveis; a grandeza da filosofia, ao contrário, repousava quase inteiramente sobre o ideal subjetivo, móvel e mutante”.(Pedro Américo 1869, p.30) ,


. A Ciência busca ser contínua e reproduzível. A Arte possui momentos culminantes e que são irreproduzíveis. Pedro Américo, ao se aproximar de Fídias, observou neste artista:

“a natureza lhe oferecia os materiais sobre os quais deveria exercer a sua inteligência, a imaginação os aproximava e ensaiava combinações novas, a razão os escolhia, enquanto a mão hábil as fixava no ouro, na prata e marfim, depois, com suprema segurança, Fidias ao submetia à multidão. A obra esplêndida de seu gênio era fortalecida pela tripla aliança da natureza, da imaginação e razão” . (Pedro Américo 1869,p.31)


A citação, e o destaque conferida aqui ao pintor Pedro Américo, deve-se a que ele ter sido o 1ª brasileiro, ao que saiba, a defender tese em Filosofia, nas concepções institucionais contemporâneas além das suas profundas vivências nas manifestações mais expressivas da arte de sua época.





[1] - TAINE Hipólito Filosofia del Arte - Buenos Aires Espasa Calpe – Coleção Austral. 1945 , 355 p.


[2] - FIGUEIREDO e MELO, Pedro Américo de – LA SCIENCE et les SYSTÈMES: questions d´histoire et de philosophie naturelle. Bruxelles : Gustave Mayolez, 1869, 169 p.

MELO, Pedro Américo de Figueiredo e – A ciência e os sistemas: questões de história e de filosofia natural. João Pessoa : Editora Universitária, 2001, 143. : il ISBN 8523701192

Texto e livro recebido pelo auto, em 2007, pela prestimosa mediação do Prof. Dr. José Flávio SILVA -Professor de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba –JOÃO PESSOA - Paraíba



http://www.googleartproject.com/museums/altesnational/view-of-the-flower-of-greece

Fig. 02 – Reconstrução dos trabalhos da Acrópole de Atenas August Wilhem JULIUS interpretando Leo von KLENZE (1784-1864)

Clique sobre a imagem para ampliá-la


Na convicção do jovem pintor e filósofo, a Arte atinge momentos e obras culminantes que depois tornam irreproduzíveis e sobre os quais não há como retornar ou imitar. Mesmo que sejam as pinturas Altamira e Lascaux - que a geração de Pedro Américo ainda não conhecia em 1869 - são únicas e insubstituíveis. A CIÊNCIA fracassa na busca de reproduzir estes momentos, vividos pela humanidade e das obras de arte ali produzidas. Fracasa de devolvê-los, na sua integridade ao presente, apesar dos esforços e de todas as buscas realizadas pela alta TECNOLOGIA disponível em nossos dias


Em relação a Pedro Américo, o Diário Oficial da Bélgica registrava, no dia 16 de janeiro de 1869, unanimidade da banca na atribuição da maior distinção para sua tese e conferia o grau de adjunto da Universidade de Bruxelas (Silva, 2006, p.99). .


Em Porto Alegre o esteta e médico Olinto de Oliveira já no final do século XIX distinguia o Comtismo do Positivismo e discordando, inclusive, de Aristóteles[1]. O médico pediatra Olinto de Oliveira elucidou suas preferências e distinções:“já por índole, já por temperamento, conservo-me sempre afastado das cogitações da política militante, da qual me arredam ainda mais as minhas ocupações favoritas: o estudo das ciências que cultivo e das artes que me seduzem”[2]. Nesta complementaridade é possível encontrar a mentalidade de Einstein com o seu violino. Coerentes com a CIÊNCIA e a ARTE, a sociedade de Porto Alegre ,confiou-lhe duas tarefas. Na CIÊNCIA, a de consolidar a sua profissão[3] . Na ARTE, Olinto foi o presidente da Comissão Central do Instituto Livre de Belas Artes do Rio Grande do Sul estimulando, com o seu exemplo, palavras e escritos outros cientistas abraçar e apoiar o campo das Artes.




[2] - Olinto de Oliveira, Correio do Povo 20.10.1898 ( Micro-filme do Museu Hipólito da Costa). No mês seguinte Olinto de Oliveira escrevia “o que não posso admitir de modo algum é a alienação do meu próprio juízo, levado ao ponto de acreditar sempre nas afirmações dos gênios, mesmo quando eles parecem incompreensíveis, absurdos ou contraditórios releve-me discordar do gênio de Aristóteles quando este profundo moralista justifica a escravidão pela degradação nativa de uma parte da humanidade”. Correio do Povo, 05.11.1898. (micro-filme Museu Hipólito da Costa)


[3] - Em Porto Alegre é considerado como o primeiro pediatra profissionalizado e com doutorado na sua especialidade A sua formação médica foi realizada, entre 1881 e 1886, na sede da corte. Retornou à província natal logo após a defesa , em 1888, da sua tese de doutorado intitulada ‘Das paralisias na infância’. (In Gonçalves Vianna, 1945, p. 21).


http://www6.ufrgs.br/artes/arquivo/icaatom/web/index.php/?sf_culture=pt

Fig. 03 – Médico pediatra Olinto Olympio de Oliveira


Entre os apoiadores deste Instituto de Belas Artes, além do médico Carlos Barbosa, estava Juvenal Octaviano Miller. O primeiro era Presidente do Estado do Rio Grande do Sul e o segundo o seu Vice. Este sob o pseudônimo de Tópsius escreveu no Correio do Povo do dia 22.04.1908 “Como diz Augusto Comte, ‘o espírito contemplativo tem duas direções: a direcção Philosophica e a direcção esthetica ou poetica. A primeira diz respeito as concepções fundamentais que guiam o exercício universal da razão humana e a segunda refere-se às faculdades de expressão” [1]


Contudo saltam as distinções de mentalidades, quando os campos da CIÊNCIA e da ARTE, chegam aos seus respectivos espaços administrativos. Não toleram forças estranhas, além daquelas que animam os dois campos. Agem em permanente tensão e alerta recíproca.

As palavras do jovem músico Tasso Corrêa podem ilustrar as tensões e as vigilâncias recíprocas - entre os campos da Ciência e da Arte – e a violenta reação de cientistas quando declarados incompetentes no campo dos artistas. Tasso encontrou uma metáfora deste mal-estar diante da hegemonia e o pretenso ecletismo sustentado pela CIÊNCIA para reinar sobre a ARTE. Desabafou em pleno Palco do Theatro São Pedro, frente a esta Comissão Central, aos estudantes e a sociedade porto-alegrense

“O Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul é uma instituição dirigida por médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, etc. Daí se verifica que o Instituto, sendo uma organização destinada á difusão do ensino artístico no Rio Grande do Sul, é orientado por cavalheiros de alta distinção, mas que infelizmente, na sua grande maioria, nada entende de Arte. Pra demonstrar o absurdo da nossa organização administrativa lembraria o seguinte: uma Faculdade de Medicina, dirigida por uma comissão de músicos, pintores e escultores. A sua situação deveria ser idêntica á do Instituto de Belas Artes” [2].

A simples expressão pública desta metáfora lhe custou muito caro. A Comissão Central do Instituto Livre de Belas Artes do Rio Grande do Sul era formada por médicos, juristas, contabilistas e administradores públicos cuja mentalidade era aquela da Ciência e com todos os méritos. Eles comandavam músicos e artistas plásticos. Olinto de Oliviera havia-se desententido, em 1919, com membros desta Comissão. Ele trabalhava, em 1933, no MESP no Rio de Janeiro. Cabia a defesa da ARTE ao jovem músico Tasso Correa que suportava, há uma década, a sua heteronomia nas mãos da Comissão Central.




[1] Topsius era pseudônimo de Juvenal Octaviano Miller (1866 -1909). Em 1908 era o Vice Presidente do Estado do Rio Grande do Sul. Militar, professor e positivista. Ele escreveu no dia da fundação do Instituto de Bellas Artes do Rio Grande do Sul

(Correio do Povo de 22 de abril de 1908 TOPICOS DO DIA - Cópia datilografada do AGIA-UFRGS).

[2] - DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Porto Alegre : Diários Associados, dia 26.10.1933 p.4


http://www6.ufrgs.br/artes/arquivo/icaatom/web/index.php/?sf_culture=pt

Fig. 04 – Tasso Bolivar Dias Corrêa

A comparação valeu, ao músico, a sua exclusão do IBA-RS, no mesmo dia deste desabafo público. Contudo é necessário reconhecer que a distinção era aguda e era expressão coerente com o fato de que é impossível existir hegemonia de uma sobre a outra e muito menos ecletismo mórbido e perpétuo entre os campos da CIÊNCIA e da ARTE. Foucault afirmaria que “o poder circula”, em ambas, de formas distintas, eficazes e à sua maneira.


http://www.dezenovevinte.net/obras/obras_paxconcordia.htm

Fig. 05 – PAX et CONCORDIA 1902 -Pedro Américo de Figueiredo e Mello (1843-1905)


Respeitadas as competências e os limites, entre os campos da CIÊNCIA e da ARTE, não existe contradição ou incompatibilidades. Os exemplos da Albert Einstein e do pediatra Olinto de Oliveira materializam exemplos bem sucedidos desta complementaridade fecunda entre os dois universos. O exercício desta complementaridade é um índice da capacidade e da amplidão conceitual da qual é portadora, tanto a pessoa do artista como a do cientista. Para realizar e consolidar esta complementaridade Marcel Duchamp encarecia que o artista buscasse a Universidade Os seus argumentos giravam ao redor de busca do status e do equilíbrio entre as profissões consideradas cientificas com aquelas denominadas humanas[1]..

Contudo, além deste status social, a atenção do artista necessita certificar-se do projeto do qual esta universidade é portadora. De posse deste projeto da Universidade, este artista pode realizar e atualizar contratos dignos, atuais e honrados entre as ambas as partes. Se o artista descobrir que esta universidade constitui apenas um reduto e um feudo da CIÊNCIA e da TECNOLOGIA e das profissionalizações afins, ele desperdiça tempo e criatividade. Contudo o artista, mesmo fora de uma universidade alienante - sob a hegemonia definitiva da CIÊNCIA e da TECNOLOGIA, - necessita questionar os atuais condicionamentos de materiais, de recursos e as metodologias numéricas digitais, colocados a disposição as ARTE. Necessita saber se não o estão levando para uma pós-modernidade paralela e idêntica ao universo do ícone bizantino, como aquele que vimos no post anterior deste blog

Para exemplificar esta possibilidade redutora - imposta pela TECNOLOGIA e pela CIÊNCIA à ARTE - convêm investigar as relações da chamada ALTA DEFINIÇÃO com a ARTE. Um exemplo do limite da TECNOLOGIA face à ARTE pode ser encontrado nos museus de arte disponibilizados pelo GOOGLE. Para verificar a competência e os limites desta ferramenta toda TECnOLOGIA,, face ao mundo da ARTE, é possível consultar:

http://www.latribunedelart.com/quelques-questions-autour-de-google-art-article002998.html

http://www.lumiere-technology.com/indexfr.htm


Contudo são infundados todos estes temores se acontece o que Hannah Arendt apontou (1983, p. 273) como horizonte tanto para o artista como para o cientista:

“O que salva os grandes talentos, é que as pessoas que carregam os fardos permanecem superiores a aquilo que fazem, ao menos enquanto a fonte criadora permanecer viva, pois essa fonte brota de que eles são, ela é exterior ao processo da obra, e independente do papel que eles cumprem [...] É elemento indispensável, para a nobreza humana acreditar que na individualidade do homem, o sujeito ultrapassa em grandeza e em importância tudo aquilo que ele pode fazer ou produzir”.


No breve texto - do presente post - os nomes exemplificam como os “sujeitos ultrapassarem em grandeza e em importância tudo aquilo que ele pode fazer ou produzir” na ARTE e na CIÊNCIA. O pintor, filósofo, professor e político Pedro Américo, o cronista, crítico de Arte e médico pediatra Olinto de Oliveira e o pianista, advogado e administrador Tasso Corrêa, tiveram. no presente espaço virtual, ocasião para que fossem apenas citados. As suas palavras podem mover inteligências. Contudo, o que pode mover vontades - para realizar e produzir a interação ente ARTE e CIÊNCIA - é o seu exemplo de carregarem simultaneamente vários fardos distintos e permanecerem superiores a eles. Agiram sem ecletismo e sem a rigidez do pensamento único, que defende apenas uma das competências, confundindo-se com os seus próprios argumentos.



FONTES


ARENDT, Hannah (1907-1975). Condition de l’homme moderne. Londres : Calmann-Lévy, 1983.





[1] Texto de uma alocução em inglês pronunciada por Marcel Duchamp, num colóquio organizado em Hofstra em 13 de maio de 1960 Consta em SANOULLET, Michel. DUCHAMP DU SIGNE réunis et présentés par.. Paris Flammarrion, 1991, pp. 236-239







Fig. 06 – Créditos da tese de Pedro Américo 1869

Clique sobre a imagem para ampliá-la

MELO, Pedro Américo de Figueiredo e – A ciência e os sistemas: questões de história e de filosofia natural. João Pessoa : Editora Universitária, 2001, 143. : il ISBN 8523701192

Existe copia na Biblioteca do Instituto de Artes - Nº de sistema 000598798


----------------- Considerações filosóficas sobre as belas artes entre os antigos: estudo introdutório. Conformação textual e notas de Silvano Alves Bezerra da Silva. João Pessoa : Editora Universitária, 2006, 256 p. il ISBN 8599135643 - Existe cópia Biblioteca do Instituto de Artes nº de sistema 000598791


SILVA, José Flávio PEDRO AMÈRICO: primeiro doutor brasileiro em Filosofia. João Pessoa: CONCEITOS revista de Cultura, Educação, Política e Ciência – Associação de Docentes da Universidade FederaL da Paraíba (ADUFPB) – V. 6 , nº 14, nov. 2006 – pp 96 - 101 .

------------------PEDRO AMÉRICO: cem anos de sua morte. João Pessoa : - , -, - Contra Ponto, 11 de setembro de 2005

------------------PEDRO AMÉRICO: cem anos de sua morte – PINTOR FILÓSOFO NA PARAHYBA DO NORTE. João Pessoa : - , -Contra Ponto, 18 de setembro de 2005

------------------PEDRO AMÉRICO: cem anos de sua morte- PINTOR CONSAGRADO, CHEGA À PRAHYBA EM 1888. João Pessoa : - , -, - Contra Ponto, setembro de 2005

------------------PEDRO AMÉRICO: cem anos de sua morte - 1906: MORTO CHEGA À PARAHYBA. João Pessoa : - , -, - Contra Ponto, 16 de outubro de 2005

----------------LA SCIENCE ET LES SYSTÈMES.O ECLETISMO de PEDRO AMÉRICO. CORREIO das ARTES – João Pessoa – Paraíba, ano .. nº ..., 08/06/1999 p.



Hipólito Taine (1828-1873), historiador famoso, pode ser considerado o maior positivista francês depois de Comte. Na sua principal obra filosófica, De l’intelligence, Taine sustenta um sensismo mecanicista e um fenomenismo absoluto. Não existe nem a substância espiritual, nem a substância material; elas são reduzidas a um feixe e a um fluxo de sensações. E ainda menos existe uma substância absoluta: a realidade absoluta é constituída, no fundo, por átomos psíquicos (sensações), que, combinando-se mecanicamente entre si, dão origem ao todo.


A fama e competência de pediatra de Olinto Olympio de Oliveira (1866-1956) divulgaram-se em todo território doa Estado. Atendeu Erico Verissimo em Cruz Alta que “em 1909, com menos de 4 anos, foi vítima de meningite, agravada por uma broncopneumonia, quase vem a falecer. Salva-se graças à interferência do Dr. Olinto de Oliveira, renomado pediatra, que veio de Porto Alegre especialmente para cuidar de seu problema”.http://www.releituras.com/everissimo_bio.asp Para conhecer a dimensão nacional e internacional de quem foi considerado, em setembro de 1942, em Buenos Aires, como Decano dos Pediatras Sul-Americanos, recomenda-se ler FIGUEIREDO, Gastão de et alii. Olinto de Oliveira: poliantéia. Rio de Janeiro: IBGE. 1953, 110 p

Para conhecer o ambiente onde Olinto de Oliveira dirigia “Departamento Nacional da Criança” atendiendo ao binômio mãe-filho do MESP acompanhar as pesquisas parcialmente registrada em:

CASTRO GOMES, Ângela. Capanema: o ministro e seu ministério. Rio de Janeiro : Fundação Getúlio Vargas, 2000 . pp.143-172.



O pianista, advogado e administrador Tasso Bolívar Dias Corrêa (1901-1977) formou-se, em 1921 no Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, Convidada por Guilherme Fontainha vinculou-se ao Conservatório de Música do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul (IBA-RS). A partir desta base ajudou Guilherme na criação dos conservatórios de Rio Grande, Pelotas e Bagé além da sala Beethoven de Porto Alegre. Após o evento do dia 24 de outubro de 1933 foi readmitido no Instituto. Quando o IBA-RS ajudou a constituir a Universidade de Porto Alegre (UPA), em 1934, o seu nome foi indicado para assumir a direção desta unidade universitária. Ele tomou posse deste cargo, em 1936, e o exerceu em sucessivas reeleições até 1958. Permaneceu neste cargo mesmo com a expulsão do IBA-RS pela UPA. Livre de uma universidade que continuava a exercer sobre a arte a mesma hegemonia da Comissão Central, realizou fatos marcantes para a arte do Sul do Brasil. Contratou profissionais efetivamente qualificados e reconhecidos socialmente pela sua competência no exercício da arte, abriu o espaço para Arquitetura e Urbanismo e com apoio dos “legionários”, vindos de todas as partes do Brasil, ergueu um prédio, no centro de Porto Alegre e que. Apesar do tempo e das mudanças na arte, ainda continua a abrigar o ensino formal e institucional das Artes.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tasso_Corr%C3%AAa


O Filósofo Dr. José Flávio da Silva, Professor da UFPB departamento de Filosofia aposentado. Interesse atual: Pesquisa sobre Filosofia na Paraíba, Filosofia no ensino médio, está colaborando com a comemoração dos cem anos da morte do pintor Pedro joseflavio12@yahoo.com.br

segunda-feira, 7 de março de 2011

ISTO NÃO É ARTE - 08

Convém: abrir e ler

http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/isto-nao-e-arte-01.html

para compreender os objetivos deste post.

O novo pelo novo, não é arte ou a

MORTE da Arte pelas CONEXÕES CORTADAS.

A MORTE da ARTE ocorre pela INTERRUPÇÃO ou CORTE com as circunstâncias nas quais o ARTISTA atua. Após algum tempo é possível conferir a morte pela falta dos SINAIS VITAIS da ARTE dos quais uma OBRA sempre é portadora. Com este desfecho ela é remetida ao mundo do TRABALHO, para a inutilidade e a obsolescência, senão ao museu como farsa, crime e horror.

Para constituir-se numa obra Aristóteles distinguia (1973: 343 114a 10 ) “toda a arte está no que produz, e não no que é produzido”. Entende-se aqui “no que produz” como quem produz e “no que produz” em o que. Esta produção migra para os universos constituídos pelos documentos falsos ou falsificados e condenados à obsolescência - típica da Natureza - caso ocorra a mínima desconexão - entre quem faz e aquilo que ele produz -

A desconexão entre quem faz e aquilo que ele produz, pode decorrer da inabilidade, desatenção ou onipotência daquele que se julga artista. Mas também pode ser imposta pelas circunstâncias culturais, pela falta ou excesso destes recursos, o que é mais comum. Num exemplo gritante de excesso de recursos é fornecida pela comparação e distinção entre o grau de civilização atingida pelo indígena pré-colombiano. Na comparação e distinção as obras produzidas pelos indígenas dos rudes desertos do Peru pendem a favor destes. Enquanto a produção dos indígenas - satisfeitos com a sua sorte nas dadivosas florestas e campos do Brasil - é rudimentar .

A industria cultural e o artesanato, em geral, não alcançam a conexão - vital e coerente - entre “no que produz, e no que é produzido”. As forças vivas do campo das artes produzem apenas para o mundo do trabalho ao tentar trabalhar de forma cega, heteronômica e desconectada, no âmbito da industria cultural e do artesanato. São carentes de alma própria os produtos do artesanato rotineiro e da indústria cultural destinado à obsolescência. Alma - ou ânimo - que as vivificam e sustentam como obra de arte na ausência - física e pessoal - de quem os produziu.

O poder originário da arte emerge, para nossa atenção, quando se busca este ânimo, ou alma, da arte. Neste poder originário da arte os artistas primitivos possuem um papel na conexão entre “no que produz e no que é produzido”. Um notável exemplo encontra-se na história das origens do movimento estético, que depois se denominou Renascimento Italiano. O pintor Giotto de Bondone (1266-1337) retomou o projeto da conexão com a pintura entendida como tinta, pincel sobre a superfície. Desviava-se do artesanato e dos produtos culturais já obsoletos. Tempo obsoleto no qual o ícone bizantino era produzido e estava preso a normas estéticas estranhas e diferentes daqueles das circunstâncias do poder originário vigente da época de Giotto.


http://pt.wikipedia.org/wiki/Giotto_di_Bondone

Fig. 01 _ LAMENTAÇÂO GIOTTO di BONDONE (1266-1337)



Giotto constituiu o seu projeto pessoal ao retomar os humildes meios pictóricos contra arte bizantina e contra o gótico no seu apogeu. Arte bizantina que tinha transformado as pinturas dos ícones em jóias, o gótico desproporcional ao humano. Contudo o projeto pessoal de Giotto não se constituiu apenas uma rebelião pela rebelião. No centro do seu projeto pessoal estava a criatura humana. Esta ganhava uma oportunidade para conectar a sua sensibilidade, inteligência e vontade por meio destes humildes meios pictóricos e passava a constituir-se em uma proporção como “medida de todas as coisas”.


http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dcone

Fig. 02 _ ICONE BIZANTINo RUSSO- Nossa Senhora de Kazan


Os ícones bizantinos eram trabalhados em filigrana de ouro, matérias e pedras preciosas e raras e caras. Valiam mais pelo seu material do que criatividade do seu artista. Enquanto os materiais da pintura de Giotto podem ser encontrados em qualquer ferragem. Todo o valor de uma pintura de Giotto, e dos seus seguidores, decorria da originalidade e da conexão com o ato criativo de que elaborou com estes materiais comuns e baratos.

O Renascimento condenava, nos góticos, a desproporção humana e a busca da eternidade alienante do aqui e do agora.


http://www.fineart-china.com/htmlimg/image-40128.html

Fig. 03 _ FUGA ao EGITO (1304-1305) - detalhe deGIOTTO di BONDONE (1266-1337)


Ainda que as obras de Giotto pareçam ingênuas e bisonhas para o leigo atual - movido pela onipotência e fartura de informações - elas instalaram uma série cultural de desafios coerentes entre quem produz e o que produz. O projeto - destes desafios - foi aceito pelas gerações de pintores subseqüentes. O apogeu deste projeto irá evidenciar se, na sua plenitude, nas obras de Leonardo da Vinci, de Rafael Sanzio e Miguel Ângelo, entre tantos outros.

https://peregrinacultural.wordpress.com/tag/leonardo-da-vinci/

Fig. 04 _ MONA LISA (1503-1506) Leonardo da Vinci (1452-1919)


Leonardo da Vinci, dois séculos após Giotto, aceitou o estatuto do mestre. Consciente do seu tempo e meio e o autor da Mona Lisa impôs livremente, a si mesmo e a sua arte, os procedimentos e os materiais de Giotto. Os resultados - da escolha destes humildes materiais e procedimentos - foram capazes de revelar, para todas as gerações subseqüentes, todo o esplendor e maturidade cultural da inteligência, destes dois florentinos. Esta coerência cultural transforma os artistas nos autênticos e universais testemunhos do seu tempo e lugar. As filas dos seus observadores da Mona Lisa, as páginas e tinta usada na publicação das análises, vindas de todos os saberes humanos, são índices da conexão coerente entre quem produziu e o que produziu.

Imagine-se se o Leonardo tivesse optado pela volta ao estatuto do ícone Bizantino. Toda a sua inteligência e sensibilidade estariam bloqueadas pelas rígidas normas desta arte milenar que jogariam a sua obra para a heteronomia de uma série já sem a conexão vital com as suas circunstâncias.

A busca desta coerência na conexão - com o se tempo e lugar - continua em plena vigência. Os artistas de vanguarda estão sondando o seu próprio meio e o seu tempo. Para simples exemplo desta conexão cita-se a artista americana Taryn Simon (1975). Ela criou uma das suas obras ao registrar, em fotos, o contrabando do movimento no Aeroporto de Nova York, entre os dias de 16 ate 20 de novembro de 2009.

http://www.nytimes.com/interactive/2010/07/30/magazine/20100801-taryn-simon-contraband.html#/-8/

Fig. 05 _– Contrabado de bolsas legítimas Verssagge registro em nov. 2009 de SIMON Taryn (1975)

Clique sobre as imagens

Fig. 07 _– Peças de contrabado registro em nov. 2009 de SIMON Taryn (1975)

Veja as imagens em http://www.nytimes.com/interactive/2010/07/30/magazine/20100801-taryn-simon-contraband.html

A obra Taryn SIMON (1975) possui múltiplas conexões com a vida contemporaneidade. Possui um projeto focado, limitado e exeqüível pela artista. A ação desenrola-se com toda atenção da sua autora e sem desvios de seu projeto. Tanto os textos, as imagens e o material, fornecidos para a mídia, permitem a reversibilidade a todo o processo abrangido por este projeto. Os meios numérico-digitais juntam-se e tudo isto e são direcionados para à interação com os observadores. Evidente que o tempo necessita conferir e fornecer o seu aval para transformar este projeto em obra que mantém vivo as conexões entre a artista, a sua obra e as suas circunstâncias.


http://www.shafe.co.uk/art/Richard_Hamilton-_Just_What_is_it_that_Makes_Today-s_Homes_So_Different-_So_Appealing-_(1956)-.asp


Fig. 06 _ “ O que torna os nossos lares tão atrativos” 1956 HAMILTON Richard 1922


O artista Richard Hamilton registrou em 1956 o consumismo de sua época. Na sua origem tinha sentido e conexão com o consumismo obsessivo. O tema da obra“ O que torna os nossos lares tão atrativos” é sugerido por manequins de vitrine de loja comercial rodeados por produtos de desejo da época. O procedimento da colagem vulgarizou-se. Passado meio século o próprio artista não se copiou e nem atualizou o tema. Isto seria fácil demais: bastaria ir a uma vitrina de qualquer loja de departamentos para conferir as diferenças entre 1956 e 2011. Taryn Simon retomou apenas o conceito deste projeto de consumismo na sua época . Contudo o realiza num ambiente em que poucas atuaram ou tiveram coragem de atuar: num terminal de um aeroporto dos mais movimentados do mundo e no departamento de controle de importados.

Uma das funções do estudo da História da Arte é não repeti-la voluntária ou involuntariamente. A repetição sempre é uma farsa e o que nasce desta farsa é algo já consumido por outra cultura. Este é o terreno do KITSCH que se vale do predomínio da EMOÇÃo sobre a RAZÂO. Este desequilíbrio compromete a conexão entre quem produz e o que é produzido.


Nos seus extremos e na sua totalidade absoluta, tanto a EMOÇÃo como a RAZÂO aniquilam a vida, o novo e o autêntico. Entre estas forças extremas é necessária a homeoastase. Se a RAZÂO, no seu extremo, esteriliza a reprodução do novo, a EMOÇÂO aposta e joga no caos todos os meios artísticos. Por si mesmas, tanto a EMOÇÂO como a RAZÂO, levados aos seus extremos não produzem o continuum da arte, e muito menos a sustentam. Elas são incapazes, por si mesmas, manter as conexões entre quem produz, o que produz e quem recebe a obra.



A exposição ao publico dos corações partidos, no balcão e nas janelas da mídia, são cenas de um romantismo adolescente. Historicamente esta exposição encontrou inicialmente guarida e divulgação na obra “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774) de Goethe. Contudo “esta obra produziu mais suicídios dos que o número de letras do seu texto” conforme os seus detratores e depois denominado “Efeito Werther”. Evidente este não era o objetivo do seu autor e nem o da sua obra de arte. Assim o autor de “Fausto” (1806) evolui em direção aos clássicos universais Esta evolução foi acompanhada e descrita por Cláudia Valladão de Matos[1] (USP, 2009)



A conclusão que se pode chegar é que o mero capricho da mudança pela mudança, a ruptura pele ruptura e o novo pelo novo não é arte.

Aliás a Semítica ensina, há muito tempo, que aquilo que é 100% original não possui a menor oportunidade para ser decodificado e se isola como um ato hermético e sem a possibilidade de constituir um único observador que seja.



Citados


ARISTÓTELES (384-322). Ética a Nicômano. São Paulo: Abril Cultural, 1973. 329p.


Bolsas Verssagge ver http://grupoalmibar.com/index.php


EFEITO WERTHER

. http://teorias-do-crime-um-seminario.blogspot.com/2007/03/o-efeito-werther-e-o-suicdio-importncia.html





[1] MATTOS, Cláudia Valladão de “ÉCFRASE Goethe, o Eikones de Filostrtao e a resistência aos românticos” São Paulo : Revista da USP nº 71 nov. 2009 versão impressa ISSN 0103-9989

http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_serial&lng=en&pid=0103-9989&nrm=iso

Disponível em

http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?pid=S0103-99892006000400012&script=sci_arttext


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

ISTO NÃO É ARTE - 07

Antes de ler este artigo, convém consultar:

http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/isto-nao-e-arte-01.html

07 – A DEMOCRACIA da ERA INDUSTRIAL

não é mais ARTE


http://www.wikigallery.org/wiki/painting_225845/Honor%E9-Daumier/The-Republic


Fig. 01 _ Honoré DAUMIER(1808-1879) – A República Francesa esquece a cultura e arte enquanto alimenta os mais vorazes e atrevidos


Mesmo na mais recente Historia humana é constante a corrupção e o distanciamento das relações entre poder originário e poder formal constituído.. Para conferir este abismo basta perguntar - a quem votou na Constituinte Brasileira de 1988 – o nome de quem indicou como constituinte com a função de escrever e aprovar a Carta Magna da sua Nação. Esta falta de memória e imprecisão, resultam da manipulação e desinteresse pelo poder originário. Sai desqualificado tanto o eleito como o eleitor. Ambos são prisioneiros de um sistema calcado num mito, que impõem rituais de raízes pseudo-religiosas e sem circulação ativa do poder entre o cidadão e quem o representa.


A circulação do poder entre ARTE e a atual prática da DEMOCRACIA estão com idêntico e simétrico distanciamento. Debatem-se na corrupção resultantes de num mito e que impõem rituais de raízes pseudo-religiosos. É o que se procurará evidenciar aqui. A arte sempre constitui o índice mais profundo e o que permanece, pois suas obras, no seu mínimo de forma, são índices máximos das de uma civilização da qual se originaram.


- http://pianocrs.blogspot.com/2007_10_01_archive.html - http://intouchde.org.uk/great_germans/busch


Fig. 02 _ Wilhem BUSCH (1832-1908) os desempenhos vituosísticos , realizados para quem deve alimentar a indústria cultural, afastam o artista de sua origem e corta todo o sentido da sua própria vida.

A interação entre artista e o seu público deveria ser central e determinante na obra e na manifestação de arte. Assim um astro do espetáculo engana-se ao afirmar que ele “está ali apenas para fornecer ao publico um pretexto para as suas próprias ações”. Contudo é evidente e trágico este equívoco “astro”. Pois apesar de todos querer dar-lhe poder e a razão, a indústria cultural tomou o controle do público. A lógica da era industrial dita os rituais e as ordens para a criação do pseudo-artista.


Na democracia formal o controle - mental e físico do público e do artista - pertence ao Dr. Joseph Goebbels e ao seu fiel e desavisado clero. Clero que o segue fielmente, ou pratica os rituais deste doutor. Goebbels defendera tese com o tema da literatura popular do início da era industrial[1].Ela a testou na prática entre 1933 a 1945, no trágico regime, na qual era central a cultura defendida nesta peça acadêmica. O seu clero só conhece do seu profeta aquilo que ele filtrou na sua Propaganda. Contudo seguem este aborto da era industrial, mesmo o odiando, com todas as razões. Entre os seus seguidores, mesmo a contragosto ou desavisados, poucos conhecem esta tese, o que torna este veneno subliminar e mais perigoso ainda, pois cabe em qualquer lugar e pode ser incluído na receita da criação da obra da industria cultural e ministrado aos seus consumidores. Nas circunstâncias da corrupção da democracia o público e o “astro” impregnaram-se e são condicionados pelo veneno e pelos hábitos que adquiriram ou foram-lhes impostos ao longo da era industrial. Os empresários só apostam em eventos orientados por estes hábitos submissos e alienantes. Na prática impõem, ao estilo nazista, projetos e gerenciamento de multidões exercendo férreo e subliminar controle, por meio deste gerenciamento central. Permitem expressões que não contestam o acúmulo dos meios econômicos, técnicos e de insumos. Controle férreo central gerenciando os hábitos de multidões e se colocado muito acima e distante da voz e da vez do povo e dos seus representantes que caberia a este poder originário credenciar e controlar.

Permanece na contramão, e na memória, o gigantesco happening de Woodstock[2] e os primeiros passos tateantes dos Beatles e que, num primeiro momento, foram absorvidos e vendidos na e para a indústria cultural. Os rapazes de Liverpool foram tão inteligentes, coerentes e dissolveram o grupo original, pois as circunstâncias da industria cultural retirava-lhes toda a autonomia que o artista e publico necessitam. Também ninguém insiste em transformar em série industrial o evento dos dias 15 a 19 de agosto de 1969. Hippies, beatniks e punks o dissolveram e a indústria cultural demonizou o evento como obra de drogados e alienados mentais, pois perdeu o seu controle central e não gerou lucros

http://www.earlymusic.bc.ca/CA-SeatingPlansWinter.html


Fig. 03 _ Honoré DAUMIER(1808-1879) a platéia não olha para o palco e nem presta atenção ao artista. Este público, da indústria cultural, frequenta e aguenta os desempenhos de virtuoses apenas para constar nas colunas sociais do dia seguinte.

A arte está intimada e constrangida a acompanhar o cortejo da estátua da democracia defunta e embalsamada como um ídolo a ser adorado obrigatoriamente por todos. Enquanto passa o cortejo da nova idolatria, pelas avenidas iluminadas, a Verdade, a Beleza da vida e a Justiça universal padecem nas trevas das masmorras. Os meios subtis, que a tecnologia colocou nas mãos e a serviço da mente humana, mantém a Verdade, a Beleza e a Justiça firmemente acorrentadas nestas masmorras. Meios controlados , filtrados e manipulados com absoluto desprezo pela natureza das suas prisioneiras e com mentalidade diametralmente posta. A defunta pseudo-democracia industrializada, perdeu toda a credibilidade do cidadão mais honesto e que também sente-se , prisioneiro físico e mental. Não é por acaso que no seu domicílio, ele cerca-se de muralhas físicas, eletrônicas, mantém e paga guardas de toda ordem.


http://ruadopatrocinio.wordpress.com/2010/02/07/a-liberdade-guiando-o-povo-por-e-delacroix/

Fig. 04 _ DELACROIX A democracia da era industrial conseguiu a façanha de socializar riscos e prejuízos e dores coletivas para alguns colher e embolsar lucro e s resultados positivos na divulgação e venda das desgraças publicas


A autêntica Democracia, no rigor do sentido da etimologia da palavra, está ansiando para “tirar a arte das telas e trazê-la para a vida” . O quadro estático e controlado da democracia - pintado ao longo da era industrial - é um ícone como da arte bizantina. Este quadro está a espera de um gênio com a coragem e inteligência estética de um Giotto para trazê-lo ao mundo daqui e agora tendo os pixels como tintas e mouse como pinceis.


http://en.wikipedia.org/wiki/File:Honor%C3%A9_Daumier_034.jpg

Fig. 05 _ Honoré DAUMIER(1808-1879) 3ª classe


Contudo, para que isto aconteça, o artista nascido, formado e que a atua no âmbito desta democracia industrial, necessita mudar. Esta mudança para o futuro impõe-se rápida e como incontornável. O currículo do atual artista é fruto e industrial cultural coerente e a sua mentalidade. Nestas circunstâncias está condicionado por este tipo de democracia industrial. Os seus direitos autorais são “sagrados” para esta democracia industrial. Ele personaliza a sua obra como “própria”, a assina e defende como “sua” coerente com a “posse simbólica” implantada pela era industrial em contraste com a “posse física” da era agrícola e todas as práticas coerentes. Contudo todos estes direitos da “posse simbólica” também estão em rápidas transformações em relação á obra personalizada e única da era da democracia industrial. Os meios numéricos digitais criaram e desenvolveram a “posse virtual” e que não passa pelo cartório carimbador da era industrial. Os defensores destes direitos autorais da “posse virtual” estão confusos, perplexos e sem um código legal. Os seus códigos bizantinos da posse “física” e “simbólica” não mais funcionam nem protegem os “representados” legais dos “produtores culturais” da era da democracia industrial. Ao contrário: entravam, prendem e não defendem o vínculo entre a vida e os poderes originários.


http://www.hwaethwugu.com/blog/archives/2006/11/18/fernando_boteros_abu_ghraib

Fig. 06 _ BOTERO -"Abu Ghraib" em nome e legitimada pela prática democrática industrial.


O artista não promoveu mudança alguma enquanto tiver de aturar “prêmios em cima dele”[1]. Ele será um mero acessório nas mãos do “curador” e “produtor cultural” da indústria cultural do quais depende nas suas deliberações e decisões. As deliberações e decisões deste artista estarão na masmorra, fazendo companhia com a Verdade, a Beleza e a Justiça, enquanto estiver no arbítrio da onipotência do “curador” e “produtor cultural”. “Curador” e “produtor cultural” que por sua vez foram constituídos contratados e seus cargos e dependem do capital ou de um regime político “bonzinho e popular” . Nestas circunstâncias o artista não atinge a categoria de “gente” pois Aristóteles, ciente das coisas, afirmou que “escravo não é gente, pois não delibera e decide”. Para o artista, apregoada e a nebulosa cidadania, as sua deliberações e decisões resumem-se em “cooperar” e “participar”, sem jamais atingir o estágio da “interação”. Interação na qual ele debateria o antes, ao longo e o após de qualquer ação. Interação na qual o artista, antes de qualquer ação, delibera e decide realizar contratos claros em relação às suas perdas e os lucros entre ele, o “curador” e o “produtor cultural”.



[1] - Para “prêmio em cima de “ recomenda-se a leitura de :

BERHARD, Thomas (1931-1989) O Sobrinho de Wittgenstein - Lisboa : Assírio & Alvim 2000 - ISBN 9789723706031



http://sampacentro.terra.com.br/textos.asp?id=431&ph=19

Fig. 07 _ RODIN Porta do Inferno coroada pelas figuras nuas da Verdade, da Beleza e da Justiça prisioneiras, vítimas e “DESGRAÇAS” dos ciúmes e das intrigas da era industrial.


O artista consola-se pensando que “a corrupção dos ótimos é péssima”. Ele desenvolve os seus juízos e criações em companhia da Verdade, da Beleza e da Justiça, quais “Três Desgraças”, vitimas do ciúme e do ódio prisioneiras na mesma masmorra marcada pela “Porta do Inferno” chamuscada e coberta de fuligem da poluição da era industrial. A Democracia jaz morta, corrompida e embalsamada, enquanto é louvada pelos seus sacerdotes e carrascos que entoam hinos e declamam seus panegíricos nas catedrais das ruas iluminadas e nos veículos de comunicação de massa, controlados e promotores da indústria cultural.

http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89douard_Manet

Fig. 08 _ MANET “Almoço Sobre a Relva”

A prática da DEMOCRACIA, que deveria cuidar e promover a interação entre poder originário e o exercício do poder formal, distanciou-se e corrompeu-se. A palavra DEMOCRACIA constitui, apenas uma palavrinha que alguns pretendentes a mágico recitam como uma mantra com efeito de mantê-los num cargo inócuo para o poder da sua origem. Estes pretendentes a mágico foram treinados a pensar em rituais, em procedimentos formais e em eventos condicionados e subliminares da era industrial. Treinados como máquinas a aceitar que rituais, procedimentos formais e eventos, uma vez cumpridos, podem legitimar e desencadear guerras, atrocidades, manipulações de opiniões e de informações tão, ou mais, repelentes como as das mais arcaicas e perversas formas de exercício do poder central e cego.

MARINA ABRAMOVIC e BAILEY BRITANY - http://angelfloresjr.multiply.com/journal/item/4448

Fig. 09 _ Marina ABRAMOVIC dirige Bailey Britany em “o artista presente”


A artista Marina Abramovic cumpre a proposta de Robert Rauschenberger de “tirar a arte das telas e trazê-la para a vida”. A figura nua da pintura de Manet desce viva e personalizada de Bailey Britain que se mistura e exibe inteiramente nua ao público da exposição do “artista presente”.


MARINA ABROMOVIC e BAILEY BRITANYhttp://angelfloresjr.multiply.com/journal/item/4448


Fig. 10 _ Marina ABRAMOVIC “o artista presente”



O acúmulo de poder, a causa da existência do cargo e sua função, necessitam permanente reencontro com a sua origem. Reencontro no qual trocam e atualizam forças recíprocas.


O mesmo acúmulo de poder campo da arte e seu sistema de forças, necessitam permanente reencontro com a sua origem. Reencontro frequente e seguro para todos no qual trocam forças recíprocas e cumprem o papel de fazer circularem as suas forças civilizatórias.


Impõe-se o retorno à Vida. Retorno à circulação provocada pela sístole diástole e que mantém vivos os organismos naturais e aqueles artificiais da cultura. Circulação necessária mesmo que a “posse virtual” ainda seja confusa. Circulação necessária mesmo se os códigos legais bizantinos da posse “física” e “simbólica” não mais funcionam e nem protegem os “representados” legais dos “produtores culturais” da era da democracia industrial.

Qualquer o entrave nesta circulação - física ou cultural - é risco de morte súbita do sistema.