quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ISTO NÃO É ARTE - 04

Antes de ler este artigo, convém consultar:

http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/isto-nao-e-arte-01.html

04 – NEM o ACASO e NEM o MILAGRE SÃO ARTE POR SI MESMOS.

"O acaso favorece apenas as mentes preparadas." Louis Pasteur

O tema do ‘NEM o ACASO e NEM o MILAGRE SÃO ARTE por SI MESMOS’, leva-nos adiante na investigação de outros limites e competências das artes visuais.

O limite da proibição, da norma ou do tabu, constituem formas de desafio para o artista. O artista passa a verificar, nestes obstáculos e limites, as formas como estes desafios constituem referenciais básicos e abrem oportunidades para expressar o seu agora e o seu mundo daqui.


http://curtapoesia.blogspot.com/2009/07/fugacidade-do-tempo.html

Fig. 01 – Salvador DALI (1904-1989)

O tempo circular e a mandala do relógio, desfazem-se e retornam ao acaso e ao caos, conduzidos pela entropia universal. A obra de Dali remete ao campo da comunicação linear e unívoca devido à exagerada e à redundante evidência de sua linearidade descritiva.


Assim, o caos e o sem sentido, podem constituir-se em desafios potenciais que impõe urgência na busca de uma ordem escondida ou ignorada para encontrar um sentido que ninguém percebeu antes dele. As grandes civilizações egípcias e pré incaicas nasceram em lugares geográficos nos quais as oportunidades para a vida eram mínimas. Enquanto o território brasileiro oferecia tudo ao alcance da mão, não gerou nenhuma civilização pré-histórica digna deste nome, consequente no tempo e capaz de fugir da entropia provocada pela abundância de recursos naturais.


Fig. 02 - Paul KLEE (1879-1940) – “Fast getroffen” ou “quase atingido”. 1928

Aquarela 50,8 X 39,37 cm

O perigo inesperado, o desafio, ou a ameaça do rompimento eminente da ordem habitual impulsionam ao despertar da criatura humana e a permanecer na vigilância.

Contudo qualquer achado - sem um rumo, sem uma escolha ou um projeto - não possui sentido por si mesmo. Aquele que tropeça, nestes acasos, logo os elimina da sua memória consciente. A criatura é histórica na medida dos seus projetos e por saber-se no interior de um processo. O máximo que pode acontecer com aqueles que se privam de algum projeto é andar em círculos, ao modo do “peru num círculo de giz”[1]. A carência de um projeto, deliberado e decididamente assumido, constitui, no plano individual, o retorno aos círculos impostos pelas leis da natureza. A entrega ao acaso, ao milagre e às superstições, conduz, na coletividade, à abdicação e à ruptura de qualquer autonomia, face ao mundo social do OUTRO. Desta entrega ao acaso, decorrem graves riscos de desconhecer e ultrapassar qualquer sanção moral dos atos individuais e coletivos praticados na heteronomia desta vontade.

ACASOS POTENCIALMENTE CRIATIVOS

“São fúteis e cheias de erros as ciências que não nasceram da experimentação, mãe de todo conhecimento”. Leonardo da Vinci



A ausência de um projeto - daquilo que ela busca - pode assemelhar a criatura humana encontrada congelada e morta sobre uma montanha de carvão de pedra. A vítima jamais suspeitou que a sua salvação estava naquilo que o congelava e matava. O coletador, na busca apenas do seu alimento e abrigo imediato, não atribuía o menor sentido para metais, que hoje denominamos preciosos.



Só se acha aquilo que se procura. A criatura humana é histórica na medida do seu projeto. Mesmo quando um indivíduo, isolado e singular, consegue provar objetivamente que objeto de um projeto não existe ou é impossível, a humanidade toda progride ao se livrar de um problema insolúvel.





1. [1] [PDF] CÍRCULO-DE-GIS-DE-PRENDER-PERU: UMA REFLEXÃO ACERCA DOS ...Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápidaUma cantiga de perua. É como tudo está aqui! O círculo-de-gis, a impaciência: o peru é impaciente, a perua é pessimista. E quando o peru estufa o ... www.fag.edu.br/adverbio/artigos/artigo08%20-%20adv06.pdf - Similares



http://eloprimitivo.blogspot.com/2005/05/um-lance-de-dados-jamais-abolir-o.html http://www.textfield.org/tags/theory/


Fig. 03 – “Um lance de dados jamais abolirá o acaso” “Un coup de dés jamais abolira lê hasard” escrevia Stephane MALLARMÉ (1842-1898). Apesar da ironia - do artista da obra da figura acima- de que todos os dados mostrem o nº 1 de cada das suas faces, isto não garante que. no lance seguinte , venha acontecer de novo, se os dados não forem viciados



Uma das tarefas da criatura humana civilizada é manter intacta a contradição e transformá-la em complementaridade. Contradição que mantém a tensão entre o acaso e o projeto humano. Forças irreconciliáveis geradas entre o acaso e o projeto, mas, entre as quais, é indispensável estabelecer a circulação das forças da complementaridade criativa.


O artista francês Marcel Duchamp (1887-1968) mergulhou profundamente na relação entre o acaso e a arte. Ele deslocou da sua função uma sua série de objetos encontrados por acaso [‘objet trouvé’: mitório, roda de bicicleta, porta garrafas, malas..][1] e os introduziu no circuito de arte onde ganharam novo status de obra consagradas e aceitas como tais. As milhões de rodas de bicicletas, os mitórios públicos e malas, ninguém considera obras de arte, mas que Duchamp deslocou por meio da ação comandada pelo seu projeto consciente e consequente. A “arte está em quem a faz, não naquilo que produz” no pensamento de Aristóteles. No caso a arte estava em Duchamp

O TERROR do ACASO e do CAOS PRIMORDIAL


O terror do acaso pode conduzir à racionalização, ao retorno do seio materno e ao interior da concha protetora primordial. A consequência é a eliminação, ou drástica limitação das possibilidades criativas.


http://www.latribunedelart.com/spip.php?page=docbig&id_document=8319

Fig. 04 - TURNER, Joseph Mallord William (1775-1851) Desastre no Mar c. 1835 – Óleo 171 X 220 cm (detalhe).

Os artistas românticos experimentaram formas que pudessem lidar e expressar o caos e o acaso, em oposição aos valores unívocos e lineares do Iluminismo e Racionalismo que os antecedeu historicamente.


Após o Romantismo do século XIX novas correntes e estéticas tiveram no acaso e no caos primordial a motivação e a fonte de inspiração. O Simbolismo, o Surrealismo e o Expressionismo, buscaram no acaso e no caos, cada uma à sua própria maneira, as suas fontes. As obras individuais de André Breton (1896-1966), Max Ernst, Joseph Beuys (1921-1986) e Francis Bacon (1909-1992) mostram os numerosos recursos estilísticos e os repertórios que os recursos materiais do acaso e do caos. As suas obras de arte despertaram com os limites e as possibilidades de transformar estes acasos na criação humana da arte.



O ACASO e o INTERIOR dos RECURSOS MATERIAIS da ARTE.


“Para estar junto não é preciso estar perto mas sim estar dentro”.

Leonardo Da Vinci



A ativação das forças subterrâneas, do inconsciente humano reprimido, libertaram a arte de sua carga da comunicação linear e unívoca. Para o artista, estas correntes abriram a manipulação direta dos signos. O constrangimento da temática abriu-se no uso direto e livre dos índices e dos ícones. A arte , com esta liberdade, poucas vezes vista antes na história humana, apropriou-se da pureza e da natureza dos sons, das palavras, do gesto, da cor, do movimento e com eles mostrou a sua criatividade e liberdade. Cada um no seu território, pois cada manifestação da arte é ciumenta e não tolera sobreposições, e administra mal, reforços indevidos de outros recursos criativos. A Pintura, por exemplo, voltou a pureza e exclusividade do desafio de manipular e criar pelo meio exclusivo das tintas, dos pincéis e das superfícies. Esta pureza impõe uma gramática que é inerente a este meio exclusivo. Neste meio, por menor que seja o contínuo de uma obra de arte, “ogni quantità continua é divisibile in infinito” conforme Leonardo (In VALÉRY, 1998 p. 36) afirmou na proposição CCLXXI do seu Tratado da Pintura. Com esta concepção Leonardo construiu a imagem da Mona Lisa gerando esta imagem pó meio de uma nuvem de infinitas graduações de claros e de escuros onde não existe uma linha. Leonardo levou ao apogeu o projeto de Giotto di Bondone (1266-1337) trabalhar a sua pintura com os elementos de uma superfície, dos pigmentos e do pincel.


Do lado do espectador, e de quem recebe a obra, esta mensagem proveniente da natureza dos meios, não necessita subjugar-se ao tema e ao anedótico. Um filme é constituído 24 imagens por no mínimo segundo, que se seguem num movimento delimitado num começo e num fim.


Fig. 05 – ELEMENTOS da COMUNICAÇÃO e da SEMIÓTICA . O americano Charles Sanders Pierce (1839-1914) estabeleceu as bases da Semiótica. O seu pai era astrônomo - lidando com o infinitamente grande e no acaso cósmico - desafio que despertou no filho a necessidade de estabelecer sistemas e formas de orientação e de comunicação da máquina, da vida e do humano.



O vasto repertório humano é capaz de sinapses e de conotações inesperadas, tendo como suporte os bilhões de neurônios.



Evidentes, que estas sinapses e neurônios não são infinitos por mais extensos seja o seu número. Assim, estas sinapses, neurônios organizam-se em padrões hereditários e adquiridos. Padrões que permitem construir as linguagens da fala, do gesto, da imagem, e todos os demais recursos sensoriais reconhecíveis pelo repertório consciente ou inconsciente dos seus semelhantes. Contudo, na criatura humana, a maior parte destes padrões se desenvolveram e permaneceram, no inconsciente, a espera de codificações novas e criativas. Assim por maiores que sejam os esforços dos enciclopedistas antigos, ou contemporâneos, “un coup de dés jamais abolira lê hasard” permanecem abertas as possibilidades criativas humanas.



O vasto repertório humano do suporte os bilhões de neurônios, das sinapses e de conotações inesperadas multiplicam o seu potencial e inteligências humanas múltiplas. Para isto a permanente atenção das diversas formas da inteligência em desdobramentos e conexões novas e inesperadas.


http://educacaodialogica.blogspot.com/2008_03_07_archive.html

Fig. 06 – DESDOBRAMENTOS da MÚLTIPLA INTELIGÊNCIA HUMANA



As pesquisas e as teorias de Sigmund Schlomo Freud (1859-1939) tiveram um contraponto nas concepções e nas pesquisas de Carl Gustav Jung (1875-1961). Este percebeu a busca de organização do caos nas diversos graus da capacidade de organizar formalmente o seu consciente e inconsciente. Ele percebeu, na construção e nos formatos das mandalas, por exemplo, o esforço do ser humano em conferir sentido e projetar ativamente os graus e a intensidade desta luta interior deste indivíduo para organizar-se num padrão e num núcleo referencial para si mesmo e para os outros. Para Jung, o conjunto das artes, mostra como cada cultura humana lidou com este problema de conferir sentido ao acaso e ao caos primordial. Assim cada obra de arte torna-se, e continua a constituir-se no tempo, em um documento deste esforço do indivíduo, da cultura e da época de sua origem.


Fig. 07 – Teste de RORSCHACH [tons invertidos]. Neste teste o paciente “PROJETA” o seu repertório e os seus referenciais inconscientes num sentido que ele atribui às figuras padronizadas e apresentadas pelo psicólogo.



Nos abismos do inconsciente e nas numerosas e múltiplas inteligências humanas, organizam-se, funcionam e estão disponíveis padrões que diversos testes psicológicos permitem sondar. Um dos mais antigos e conhecidos popularmente são os testes de Hermann Rorschach (1884-1922). Numa série de manchas o entrevistado projeta, na linguagem, sentidos e significados pessoais e originais em relação a que percebe e expressa um outro entrevistado.


Fig. 08 – Teste de Hermann Rorschach que desenvolveu as manchas de tinta, embora não as utilizasse para a análise da personalidade.



Para ampliar o tema do acaso e arte:

TESTE de RORSCHACH

http://pt.wikipedia.org/wiki/Teste_de_Rorschach


http://sicologia.net/category/psiquiatria/


http://movv.org/2009/11/21/os-testes-de-rorschach/


http://brazil.skepdic.com/rorschach.html


http://www.famous-painters.org/Max-Ernst/The-Eye-of-Silence.shtm

Fig. 09 – Max ERNST (1891-1976) – O olho do Silêncio - c. 1943-4 – óleo 108 x 141 cm


http://www.nytimes.com/2010/11/19/arts/design/19kiefer.html

http://www.artnet.com/artwork/425931891/to-be-titled-triptyque.html

Fig. 10 - KIEFER, Anselm (1945 - ) – Tríptico. 2008, cada painel 330 x 190 cm



ARISTÓTELES (384 a.C – 322 a.C) e o AGORA

http://www.consciencia.org/o-agora-e-a-apreensao-do-tempo-na-fisica-de-aristoteles


http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2720&cd_materia=450

http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2720&cd_materia=1269


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DUCHAMP, Marcel objet trouvè - - ready-made – objetos encontrados

http://www.answers.com/topic/found-art


MALLARMÉ, Stephane

http://eloprimitivo.blogspot.com/2005/05/um-lance-de-dados-jamais-abolir-o.html

http://www.textfield.org/tags/theory/


TAPIES, Antoni (1923-)

http://www.fundaciotapies.org/site/spip.php?article2983


TURNER, J.M.W 1775-1851

http://www.latribunedelart.com/spip.php?page=docbig&id_document=8319

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ISTO NÃO É ARTE - 03

Antes de ler este artigo, convém consultar:

http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/isto-nao-e-arte-01.html

03 - ESCRAVO NÃO FAZ ARTE



Fig. 01 – O Negrinho do Pastoreio colocado abaixo das bestas



O DIA da CONSCIÊNCIA NEGRA, instituído recentemente, e comemorado no dia 20 de novembro de cada ano, trará certamente o tema da ESCRAVIDÂO como central e o caminho de uma possível reparação de inverdades e injustiças clamorosas.


A cultura sul-rio-grandense oferece material, variado e recente, para aprofundar este tema e exemplificar a servidão e formas para reparar.


Fig. 02 – O Negrinho do Pastoreio sem pai e ai conhecidos e sem proteção confundido com as bestas.



Foi no caminho da arte que este escravo negro encontrou os seus pontos de resistência, de busca de identidade e de possibilidades para projetar a sua própria cultura. Se ele tivesse rendido a sua inteligência e sua vontade - neste campo de forças da arte - seria completa e absoluta a sua reificação. Restou o filão de sua arte para buscar e afirmar o que existe de mais ancestral e comum na civilização humana. Depois das custosas busca da arqueologia das origens da consciência do europeu, chegou a hora de fazer a arqueologia da consciência africana e que foi introduzido no Brasil na forma de escravo.


Fig. 03 – Crianças vendendo flores em Porto Alegre como “escravos de ganho” .


Contudo, antes é necessário vencer o tabu de que ESCRAVO NÂO FAZ ARTE. Este era o argumento subliminar constante dos escravocratas. Por meio dele desqualificavam integralmente a vontade e o sentimento de quem ele queria ao seu serviço. Desejavam usufruir todo o seu trabalho, de corpo e alma, do berço até cova rasa. Negavam a este “seu pertence”, a origem, a identidade ou nome de família ou clã .


http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smc/default.php?reg=4&p_secao=19

Fig. 04 –Solar Lopo Gonçalves – construído entre 1845-1855, como uma CASA GRANDE (em cima) e a SENZALA (porão) em PORTO ALGRE.



Para legitimar este “seu pertence”, proibiam-lhe a língua africana. Despojavam-no de, de qualquer posse ou signo de identidade. Os grupos étnicos era dispersos em locais distantes de outros dos indivíduos das tribos africanas da sua origem. A sua reprodução era efetuada fora da família e clã ao modelo da reprodução de um plantel animal e com a intervenção do elemento branco. Suas crenças era desprezadas, perseguidas e violadas pela conversão forçada e a sua integração em irmandades artificiais e controladas pelo dominador.


www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/14870/000655853.pdf?...1 http://maracatureidocongo.blogspot.com/

Fig. 05 – A Irmandade do Rosário recebendo donativos – Jean Baptiste Debret.

O escravocrata propunha-se atingir a heteronomia total da vontade e da CONSCIÊNCIA NEGRA deste “seu pertence”. Aristóteles, ao descrever a escravidão e os seus efeitos, percebeu, no seu conjunto, de que o escravo não é humano, pois não delibera e não decide. Os seu argumento e de que “um ser que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a outro, mesmo sendo homem, este é, por natureza, um escravo” (in Tosi, 2003, p.79) além de reificação do corpo, remete o escravo ao mundo de possíveis negócios patrimoniais como um entre outros “pertences”.


Fig. 06 – Fundos da Igreja do Rosário – Porto Alegre



Invertendo esta afirmação é possível dizer que quem não delibera e não decide não é gente. Se isto de fato vier a ocorrer não há arte.

As formas culturais dos quais o dominador se valia para produzir este heteronomia da vontade do seu escravo, foram descritos por Arsène Isabelle , em 1834, ao visitar a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Narra (2010, p.247) que:

“sabeis como esses senhores em sua superioridade, tratam os escravos? Como nós tratamos os cães. Começam chamá-los com um assovio e, se não atendem imediatamente, recebe dois ou tre tabefes[...] Se tentam explicar, são amarrados ao primeiro poste, e então, o senhor ou senhora vêm, com grande alegria, ver flagelar até que o sangue brote, aqueles que na mais das vezes, só cometeram a falta bem inocente de não terem podido adivinhar os caprichos de seus senhores e donos. [ ...]Pois bem, vi estas coisas no ano da graça de mil oitocentos e trinta e quatro! E vi mais ainda. Há senhores bastante bárbaros, principalmente na campanha,, que mandam fazer incisões nas faces, nas costas, na nádegas, nas coxas para dos seus escravos, para meter pimenta dentro delas.[...] Com sal e pimenta, como se trata a chaga de um animal que se quer preservar dos vermes”.


Fig. 07 – O escravo marcado


Estes senhores de escravos, de 1834, seguiam ao pé da letra o que Aristóteles afirmou que “escravos e animais domésticos prestam ajuda com seu corpo às necessidades da vida” (in Tosi, 2003, p85)

O esforço para sair desta heteronomia - vista com algo natural, e afirmar os paradigmas coerentes com estas circunstâncias - criam, na criatura humana, submetida a esta condição de escravo, um halo e uma necessidade de mergulhar nos mistérios no seu ente reificado e violentado.


Contudo o próprio Aristóteles reconhecia que “é somente em virtude da lei (nomos) que alguém é escravo e o outro livre” (in Tosi, 2003, p.74). Esta distinção do filósofo não impediu a formação de hábitos, tanto no dominador como no escravo, de uma cultura, na qual “o livre legal”, permaneceu na heteronomia daquele que ele considerava seu “escravo legal ou natural” na satisfação, das suas necessidades vitais. O escravo, com o corpo reificado, despojado de sua autonomia de vontade e com os sentimentos violentados, estava pronto a rechaçar sempre qualquer culpa de suas situação, legal e natural, retirando qualquer sanção moral dos seus atos.


LAGEMANN, Eugênio et LICHT, Flávia Boni (rg.s) PALÁCIO PIRATINI. Porto Alegre : IEL, 2010, p.95


Fig. 08 – O Negrinho do Pastoreio na Glória

“Porém logo, de. perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia — da mesma hora — de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!” Lendas do Sul - Simões Lopes Neto.



O esforço, para sair da heteronomia da escravidão, encontra o seu maior obstáculos na escravidão voluntária, no discurso do coitadinho e no eterno discurso de plantão da “culpa é do OUTRO”. A escravidão voluntária, sabe que a “sanção moral da vontade é a sua autonomia” segundo Kant. Mas, como esta é muito difícil, inacessível mesmo em circunstâncias como a escravidão do corpo de alma.



Numa civilização, como a atual - subjugada e atrelada aos apelos explícitos e subliminares do marketing e da propaganda - a reprodução autônoma do seu ente, da vontade e dos sentimentos autênticos, encontram permanentes motivos para jogar-se nos braços da heteronomia da sua vontade e escravidão voluntária.

A questão torna-se crítica ao considerar que:

“a arte não pode ter sua missão na cultura e formação, mas seu fim deve ser alguém mais elevado que sobre-passe a humanidade. Com isso deve satisfazer-se o artista. É o único inútil, no sentido mais temerário” Nittzsche 2000, p.134[1]


Não deve surpreender ninguém a emergência de estéticas e as formas de expressão novas, desconhecidas e criativas,. Elas serão possíveis depois de vencida a escravidão natural, legal e voluntária. A afirmação de novos paradigmas coerentes com “alguém mais elevado que sobre-passe a humanidade”.





[1] NIETZSCHE, Frederico Guillermo (1844-1900) Sobre el porvenir de nuestras escuelas. Barcelona: Tusquets, 2000. 179.



http://artecarlao.blogspot.com/

Fig. 09 - CARLOS ALBERTO de OLIVEIRA – o Carlão – O FUTEBOL -



Cabe ao observador – diante de alguÉm que não segue a tradição estética, e as suas leis, geradas ao longo desta cultura escravagista legal e natural - uma ruptura epistêmica e estética com os seus próprios paradigmas, para poder contemplar e usufruir destes novos mundos emergentes.

Torna-se odiosa qualquer comparação entre estéticas e obras. Exige-se o conhecimento das circunstâncias e as origens destas obras de arte para realizar a ruptura epistêmica e estética com os seus próprios saberes. A vontade, iluminada por estas distinções pode realizar opções nos espaços estéticos conquistados por aqueles que estiveram na heteronomia da escravidão natural, legal e voluntária. Tanto o artista como o seu observador - com estas distinções - possuem o direito de escolhas criativas na fértil reprodução de uma cultura própria e autônoma.

Com estes cuidados é possível perceber a imensa diversidade estética e a força da sua criatividade em algumas amostras que se seguem:



PINTORES NEGROS sul-rio-grandenses e alguns brasileiros

http://escafandro.blogtv.uol.com.br/2008/09/02/negros-pintores-reune-obras-de-brasileiros-dos-seculos-xix-e-xx


MARIA LIDIA MAGLIANI

http://www.guion.com.br/arte/magliani.htm - http://www.margs.rs.gov.br/ndpa_sele_maria.php

http://www6.ufrgs.br/acervoartes/modules/wiwimod/index.php?page=MAGLIANI


WILSON TIBÉRIO

http://www6.ufrgs.br/acervoartes/modules/xcgal/displayimage.php?pid=459&album=2&pos=3

http://paulistacult.wordpress.com/


CARLOS ALBERTO de OLIVEIRA – o Carlão

http://artecarlao.blogspot.com/

O poeta OLIVEIRA SILVEIRA

http://www.negraldeia.blogspot.com/

www.oliveirasilveira.blogspot.com

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

BOÉTIE, Etienne La (1530-1563). Discurso da Servidão Voluntária (1549). Tradução de Laymert G. dos Santos. Comentários de Claude Lefort e Marilena Chauí. São Paulo : Brasiliense, 1982. 239p.

BOURDIEU, Pierre (1930–2002) & PASSERON, Jean Claude. A Reprodução. Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1982. p. 238

KANT, Emmanuel (1742-1804). Crítica da razão prática. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d. 255p.


LAGEMANN, Eugênio et LICHT, Flávia Boni (rg.s) PALÁCIO PIRATINI. (3ª ed.) Porto Alegre : IEL, 2010, 144p. Il. 22 x 25 cm. CDU: 725.13(816.51) - ISBN 978-85-7063-339-2


MARTINS, Liana Bach – A geografia histórica de Porto Alegre através de três olhares (1800-1850)RS – Porto Alegre : UFRS – Instituto de Geociências 2008, 229 fls

www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/14870/000655853.pdf?...1


NIETZSCHE, Frederico Guillermo (1844-1900) Sobre el porvenir de nuestras escuelas. Barcelona: Tusquets, 2000. 179.


TOSI. Giiusepe. Aristóteles e a escravidão natural Campinas :Boletim da CPA nº 15, jan/ajun 2003 pp 71-100. . ARISTÓTELES EA ESCRAVIDÃO NATURAL Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat –

Visualização rápida www.puc-rio.br/parcerias/sbp/pdf/11-giuseppe.pdf -



Este blog esteve mais lento na postagem de matérias inéditas, devido à contabilidade e organização do seu arquivo no acervo disponível em


http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/sumario-eletronico-do-1-ano-do-blog.html


espera-se retomar o ritmo normal.


Veja também o blog:

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

ISTO NÃO É ARTE - 02

Antes de ler este artigo convém consultar:

http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/isto-nao-e-arte-01.html

02 - NATUREZA não é ARTE.


http://agaudi.wordpress.com/2007/06/07/russel-croman-fotografias-astronomicas/

Fig. 01 – POEIRA CÓSMICA e NEBULOSA

O que se admira aqui é a fotografia e a intervenção do fotógrafo para obter este efeito vista da Terra.


Clique sobre as imagens para ampliá-las



O poeta Fernando Pessoa conseguiu expressar a distinção entre a ARTE e a NATUREZA, ao escrever:


“Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza
”.


(1985 pp. 64-5)+ Clique sobre: Li Hoje (Fernando Pessoa)



A distinção entre NATUREZA e ARTE é necessária na medida em que a ARTE constitui um fenômeno humano, enquanto a NATUREZA foge às competências e aos limites humanos.


Contudo muitas correntes filosóficas, políticas, religiosas e estéticas erigiram a criatura humana como juiz e soberano da Natureza e da própria Terra. Esta foi constituída, por este soberano onipotente, como o centro e a razão de ser do seu sistema universalizante e totalitário. Nesta visão nada mais justo que esta Terra, reificada por este sistema, dever obediência ao livre arbítrio humano e dobrar-se a todos os seus caprichos.


Todos sabem e sentem as consequências destas concepções antropocêntricas


http://www6.ufrgs.br/acervoartes/modules/xcgal/displayimage.php?pid=281&album=search&cat=0&pos=1

Fig. 02 - Oscar BOEIRA : Harmonia Dourada.

Na obra o pintor usa os recursos das tintas e do pincel orientados pelos sons da música do piano


Para a Música e mais fácil a distinção entre NATUREZA e ARTE. A mais universal das artes não busca imitar [mimesis] a NATUREZA para criar as suas construções sonoras autônomas e subliminares aos julgamentos desta criatura humana onipotente. O artista Paul KLEE era músico e pintor :


http://callybooker.wordpress.com/2009/03/14/weaving-polyphony/

Fig. 03 - Paul KLEE - Polifonia


A crise de Maneirismo ganhou cores dramáticas quando Gallileu Galilei descartou a “Terra e a criatura humana como causa e medida de todas as coisas”.


http://wdjoyner.org/photography/public-domain/abstract-art/kandinsky/kandinsky.comp-6.jpg

Fig. 04 – Wassily KANDINSKY


As concepções da Relatividade e da Física Quântica ampliaram este estranhamento de quem pretendia ser medida e referencial dimiúrgico.


Allain Badiou a contrapõe a ARTE com a NATUREZA. “A natureza é o que do ser é rigorosamente normal” (1996: 109). Ainda Badiou completa “a natureza é a normalidade recorrente. Assim o ser-natural realiza uma estabilidade, um equilíbrio maximal entre a apresentação e representação (+), entre presença (+) e a inclusão (+) entre situação (+) e o estado da situação(+)” (1996: 395).



Nas CIÊNCIAS, tanto NATUREZA como ARTE são entes primitivos, necessários para a investigação, mas impossíveis de serem definidos na linguagem. No máximo é possível lançar sobre eles algumas afirmações. As ciências partem dessas afirmações e constroem seu conhecimento ao redor delas. Em todos os tempos a ciência precisou dessa base preliminar para dar um salto de qualidade. Os pensadores gregos partiram dessa base como em Platão que escreveu (1941: 265) “quero, pois, que a beleza do céu visível não seja mais que a imagem do céu inteligível. Assim nos serviremos dos astros no estudo da astronomia, como nos serviremos das figuras na geometria, sem nos determos no que se passa no céu, se queremos nos fazer verdadeiros astrônomos e tirar algum proveito da parte inteligente da nossa alma”. Adiante essa frase será resumida: “Depois de olhar os astros, deixemos as estrelas em paz e façamos astronomia”. Na arte, o conceito de ente primitivo pode ser remetido ao conceito de supra-sensível. De Duve declarou (1998, p.139): “o supra-sensível é o domínio ou, melhor, é o terreno ‘ilimitado, mas também inacessível’, além do sensível, cuja realidade não pode sr afirmada nem aceita como verdadeira, mas cuja necessidade deve ser postulada, e ‘devemos de fato preencher essa necessidade com idéias”.

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Fig. 05 – ESPIRAL MÚLTIPLA CONSTRUIDA a PARTIR do CÓDIGO GENÉTICO


As pontes (inter – esse) - entre a Natureza e a Arte - são numerosas e continuadas no tempo desde os vestígios mais antigos. A criatura projetava o seu próprio repertório sobre a Natureza e dela retirava, e representava ao seu modo, o que pertencia a este repertório e no seu interesse, como caçador.


http://www.quesabesde.com/noticias/nomada-altamira-descubrimiento-marcelino-sanz-sautuola-juan-vilanova,1_5147

Fig. 026- TETO dos BISÕES da CAVERNA de ALTAMIRA



O primitivo caçador evidenciava, nas paredes das cavernas, o seu interesse e ali registrava - em tintas, manchas e linhas nas suas pinturas - as suas buscas que realizava na Natureza

Gele concilia e transforma esta oposição, pela educação, e esclarece (1980 : 133) “cumpre a educação estética impor-se como mediadora, porque o seu fim consiste, segundo Schiller, em conferir às inclinações, tendências, sentimentos e impulsos, uma formação que as leve a participar na razão de tal modo que a razão e a espiritualidade ficam despojadas do caráter abstrato, para se unirem a natureza como tal, e da carne e do seu sangue se enriquecerem”. Gele transforma em complementaridade aquilo que para Allain Badiou se contrapõe pela variedade e objetividade da natureza opondo-a à exigência da unidade e à abstração da razão".



Bibliografia para alguns argumentos na distinção entre NATUREZA e ARTE:


BADIOU, Alain. O ser e o evento. Rio de Janeiro : Zaha r- UFRJ, 1996. 402p


BOESIGER, Willy . Le Corbusier Les Derniers œuvres Zurich : Artemis, œuvres complètes 1970, , v.8, 208 p


DE DUVE, Thierry «Kant depois de Duchamp» Arte & Ensaios Revista do Mestrado em História da Arte da EBA. Rio de Janeiro : EBA-UFRJ Ano 5, no 5, pp.125-154, 1998.


KANDINSKY, Wassily. Ponto e linha sobre o plano: contribuição à análise dos elementos da pintura. São Paulo : Martins Fontes, 2001 206 p. il

-------- Do espiritual na arte e na pintura em particular [2ª ed] São Paulo : Martins Fontes, 2001 206 p. il



PESSOA, Fernando . Poemas. (6ª ed). . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985 p. 159


PLATÃO (427-347 a.C) La república o el Estado. Buenos Aires : Espasa-Calpe, 1941. 365 p.