quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ISTO NÃO É ARTE - 03

Antes de ler este artigo, convém consultar:

http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/isto-nao-e-arte-01.html

03 - ESCRAVO NÃO FAZ ARTE



Fig. 01 – O Negrinho do Pastoreio colocado abaixo das bestas



O DIA da CONSCIÊNCIA NEGRA, instituído recentemente, e comemorado no dia 20 de novembro de cada ano, trará certamente o tema da ESCRAVIDÂO como central e o caminho de uma possível reparação de inverdades e injustiças clamorosas.


A cultura sul-rio-grandense oferece material, variado e recente, para aprofundar este tema e exemplificar a servidão e formas para reparar.


Fig. 02 – O Negrinho do Pastoreio sem pai e ai conhecidos e sem proteção confundido com as bestas.



Foi no caminho da arte que este escravo negro encontrou os seus pontos de resistência, de busca de identidade e de possibilidades para projetar a sua própria cultura. Se ele tivesse rendido a sua inteligência e sua vontade - neste campo de forças da arte - seria completa e absoluta a sua reificação. Restou o filão de sua arte para buscar e afirmar o que existe de mais ancestral e comum na civilização humana. Depois das custosas busca da arqueologia das origens da consciência do europeu, chegou a hora de fazer a arqueologia da consciência africana e que foi introduzido no Brasil na forma de escravo.


Fig. 03 – Crianças vendendo flores em Porto Alegre como “escravos de ganho” .


Contudo, antes é necessário vencer o tabu de que ESCRAVO NÂO FAZ ARTE. Este era o argumento subliminar constante dos escravocratas. Por meio dele desqualificavam integralmente a vontade e o sentimento de quem ele queria ao seu serviço. Desejavam usufruir todo o seu trabalho, de corpo e alma, do berço até cova rasa. Negavam a este “seu pertence”, a origem, a identidade ou nome de família ou clã .


http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smc/default.php?reg=4&p_secao=19

Fig. 04 –Solar Lopo Gonçalves – construído entre 1845-1855, como uma CASA GRANDE (em cima) e a SENZALA (porão) em PORTO ALGRE.



Para legitimar este “seu pertence”, proibiam-lhe a língua africana. Despojavam-no de, de qualquer posse ou signo de identidade. Os grupos étnicos era dispersos em locais distantes de outros dos indivíduos das tribos africanas da sua origem. A sua reprodução era efetuada fora da família e clã ao modelo da reprodução de um plantel animal e com a intervenção do elemento branco. Suas crenças era desprezadas, perseguidas e violadas pela conversão forçada e a sua integração em irmandades artificiais e controladas pelo dominador.


www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/14870/000655853.pdf?...1 http://maracatureidocongo.blogspot.com/

Fig. 05 – A Irmandade do Rosário recebendo donativos – Jean Baptiste Debret.

O escravocrata propunha-se atingir a heteronomia total da vontade e da CONSCIÊNCIA NEGRA deste “seu pertence”. Aristóteles, ao descrever a escravidão e os seus efeitos, percebeu, no seu conjunto, de que o escravo não é humano, pois não delibera e não decide. Os seu argumento e de que um ser que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a outro, mesmo sendo homem, este é, por natureza, um escravo (in Tosi, 2003, p.79) além de reificação do corpo, remete o escravo ao mundo de possíveis negócios patrimoniais como um entre outros “pertences”.


Fig. 06 – Fundos da Igreja do Rosário – Porto Alegre



Invertendo esta afirmação é possível dizer que quem não delibera e não decide não é gente. Se isto de fato vier a ocorrer não há arte.

As formas culturais dos quais o dominador se valia para produzir este heteronomia da vontade do seu escravo, foram descritos por Arsène Isabelle , em 1834, ao visitar a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Narra (2010, p.247) que:

“sabeis como esses senhores em sua superioridade, tratam os escravos? Como nós tratamos os cães. Começam chamá-los com um assovio e, se não atendem imediatamente, recebe dois ou tre tabefes[...] Se tentam explicar, são amarrados ao primeiro poste, e então, o senhor ou senhora vêm, com grande alegria, ver flagelar até que o sangue brote, aqueles que na mais das vezes, só cometeram a falta bem inocente de não terem podido adivinhar os caprichos de seus senhores e donos. [ ...]Pois bem, vi estas coisas no ano da graça de mil oitocentos e trinta e quatro! E vi mais ainda. Há senhores bastante bárbaros, principalmente na campanha,, que mandam fazer incisões nas faces, nas costas, na nádegas, nas coxas para dos seus escravos, para meter pimenta dentro delas.[...] Com sal e pimenta, como se trata a chaga de um animal que se quer preservar dos vermes”.


Fig. 07 – O escravo marcado


Estes senhores de escravos, de 1834, seguiam ao pé da letra o que Aristóteles afirmou que escravos e animais domésticos prestam ajuda com seu corpo às necessidades da vida (in Tosi, 2003, p85)

O esforço para sair desta heteronomia - vista com algo natural, e afirmar os paradigmas coerentes com estas circunstâncias - criam, na criatura humana, submetida a esta condição de escravo, um halo e uma necessidade de mergulhar nos mistérios no seu ente reificado e violentado.


Contudo o próprio Aristóteles reconhecia que é somente em virtude da lei (nomos) que alguém é escravo e o outro livre (in Tosi, 2003, p.74). Esta distinção do filósofo não impediu a formação de hábitos, tanto no dominador como no escravo, de uma cultura, na qual “o livre legal”, permaneceu na heteronomia daquele que ele considerava seu “escravo legal ou natural” na satisfação, das suas necessidades vitais. O escravo, com o corpo reificado, despojado de sua autonomia de vontade e com os sentimentos violentados, estava pronto a rechaçar sempre qualquer culpa de suas situação, legal e natural, retirando qualquer sanção moral dos seus atos.


LAGEMANN, Eugênio et LICHT, Flávia Boni (rg.s) PALÁCIO PIRATINI. Porto Alegre : IEL, 2010, p.95


Fig. 08 – O Negrinho do Pastoreio na Glória

Porém logo, de. perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia — da mesma hora — de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!” Lendas do Sul - Simões Lopes Neto.



O esforço, para sair da heteronomia da escravidão, encontra o seu maior obstáculos na escravidão voluntária, no discurso do coitadinho e no eterno discurso de plantão da “culpa é do OUTRO”. A escravidão voluntária, sabe que a “sanção moral da vontade é a sua autonomia” segundo Kant. Mas, como esta é muito difícil, inacessível mesmo em circunstâncias como a escravidão do corpo de alma.



Numa civilização, como a atual - subjugada e atrelada aos apelos explícitos e subliminares do marketing e da propaganda - a reprodução autônoma do seu ente, da vontade e dos sentimentos autênticos, encontram permanentes motivos para jogar-se nos braços da heteronomia da sua vontade e escravidão voluntária.

A questão torna-se crítica ao considerar que:

a arte não pode ter sua missão na cultura e formação, mas seu fim deve ser alguém mais elevado que sobre-passe a humanidade. Com isso deve satisfazer-se o artista. É o único inútil, no sentido mais temerário Nittzsche 2000, p.134[1]


Não deve surpreender ninguém a emergência de estéticas e as formas de expressão novas, desconhecidas e criativas,. Elas serão possíveis depois de vencida a escravidão natural, legal e voluntária. A afirmação de novos paradigmas coerentes com “alguém mais elevado que sobre-passe a humanidade”.





[1] NIETZSCHE, Frederico Guillermo (1844-1900) Sobre el porvenir de nuestras escuelas. Barcelona: Tusquets, 2000. 179.



http://artecarlao.blogspot.com/

Fig. 09 - CARLOS ALBERTO de OLIVEIRA – o Carlão O FUTEBOL -



Cabe ao observador – diante de alguÉm que não segue a tradição estética, e as suas leis, geradas ao longo desta cultura escravagista legal e natural - uma ruptura epistêmica e estética com os seus próprios paradigmas, para poder contemplar e usufruir destes novos mundos emergentes.

Torna-se odiosa qualquer comparação entre estéticas e obras. Exige-se o conhecimento das circunstâncias e as origens destas obras de arte para realizar a ruptura epistêmica e estética com os seus próprios saberes. A vontade, iluminada por estas distinções pode realizar opções nos espaços estéticos conquistados por aqueles que estiveram na heteronomia da escravidão natural, legal e voluntária. Tanto o artista como o seu observador - com estas distinções - possuem o direito de escolhas criativas na fértil reprodução de uma cultura própria e autônoma.

Com estes cuidados é possível perceber a imensa diversidade estética e a força da sua criatividade em algumas amostras que se seguem:



PINTORES NEGROS sul-rio-grandenses e alguns brasileiros

http://escafandro.blogtv.uol.com.br/2008/09/02/negros-pintores-reune-obras-de-brasileiros-dos-seculos-xix-e-xx


MARIA LIDIA MAGLIANI

http://www.guion.com.br/arte/magliani.htm - http://www.margs.rs.gov.br/ndpa_sele_maria.php

http://www6.ufrgs.br/acervoartes/modules/wiwimod/index.php?page=MAGLIANI


WILSON TIBÉRIO

http://www6.ufrgs.br/acervoartes/modules/xcgal/displayimage.php?pid=459&album=2&pos=3

http://paulistacult.wordpress.com/


CARLOS ALBERTO de OLIVEIRA – o Carlão

http://artecarlao.blogspot.com/

O poeta OLIVEIRA SILVEIRA

http://www.negraldeia.blogspot.com/

www.oliveirasilveira.blogspot.com

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

BOÉTIE, Etienne La (1530-1563). Discurso da Servidão Voluntária (1549). Tradução de Laymert G. dos Santos. Comentários de Claude Lefort e Marilena Chauí. São Paulo : Brasiliense, 1982. 239p.

BOURDIEU, Pierre (1930–2002) & PASSERON, Jean Claude. A Reprodução. Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1982. p. 238

KANT, Emmanuel (1742-1804). Crítica da razão prática. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d. 255p.


LAGEMANN, Eugênio et LICHT, Flávia Boni (rg.s) PALÁCIO PIRATINI. (3ª ed.) Porto Alegre : IEL, 2010, 144p. Il. 22 x 25 cm. CDU: 725.13(816.51) - ISBN 978-85-7063-339-2


MARTINS, Liana Bach – A geografia histórica de Porto Alegre através de três olhares (1800-1850)RS – Porto Alegre : UFRS – Instituto de Geociências 2008, 229 fls

www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/14870/000655853.pdf?...1


NIETZSCHE, Frederico Guillermo (1844-1900) Sobre el porvenir de nuestras escuelas. Barcelona: Tusquets, 2000. 179.


TOSI. Giiusepe. Aristóteles e a escravidão natural Campinas :Boletim da CPA nº 15, jan/ajun 2003 pp 71-100. . ARISTÓTELES EA ESCRAVIDÃO NATURAL Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat –

Visualização rápida www.puc-rio.br/parcerias/sbp/pdf/11-giuseppe.pdf -



Este blog esteve mais lento na postagem de matérias inéditas, devido à contabilidade e organização do seu arquivo no acervo disponível em


http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/sumario-eletronico-do-1-ano-do-blog.html


espera-se retomar o ritmo normal.


Veja também o blog:

http://mathiassimon1829.blogspot.com/

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

ISTO NÃO É ARTE - 02

Antes de ler este artigo convém consultar:

http://profciriosimon.blogspot.com/2010/10/isto-nao-e-arte-01.html

02 - NATUREZA não é ARTE.


http://agaudi.wordpress.com/2007/06/07/russel-croman-fotografias-astronomicas/

Fig. 01 – POEIRA CÓSMICA e NEBULOSA

O que se admira aqui é a fotografia e a intervenção do fotógrafo para obter este efeito vista da Terra.


Clique sobre as imagens para ampliá-las



O poeta Fernando Pessoa conseguiu expressar a distinção entre a ARTE e a NATUREZA, ao escrever:


Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza
.


(1985 pp. 64-5)+ Clique sobre: Li Hoje (Fernando Pessoa)



A distinção entre NATUREZA e ARTE é necessária na medida em que a ARTE constitui um fenômeno humano, enquanto a NATUREZA foge às competências e aos limites humanos.


Contudo muitas correntes filosóficas, políticas, religiosas e estéticas erigiram a criatura humana como juiz e soberano da Natureza e da própria Terra. Esta foi constituída, por este soberano onipotente, como o centro e a razão de ser do seu sistema universalizante e totalitário. Nesta visão nada mais justo que esta Terra, reificada por este sistema, dever obediência ao livre arbítrio humano e dobrar-se a todos os seus caprichos.


Todos sabem e sentem as consequências destas concepções antropocêntricas


http://www6.ufrgs.br/acervoartes/modules/xcgal/displayimage.php?pid=281&album=search&cat=0&pos=1

Fig. 02 - Oscar BOEIRA : Harmonia Dourada.

Na obra o pintor usa os recursos das tintas e do pincel orientados pelos sons da música do piano


Para a Música e mais fácil a distinção entre NATUREZA e ARTE. A mais universal das artes não busca imitar [mimesis] a NATUREZA para criar as suas construções sonoras autônomas e subliminares aos julgamentos desta criatura humana onipotente. O artista Paul KLEE era músico e pintor :


http://callybooker.wordpress.com/2009/03/14/weaving-polyphony/

Fig. 03 - Paul KLEE - Polifonia


A crise de Maneirismo ganhou cores dramáticas quando Gallileu Galilei descartou a “Terra e a criatura humana como causa e medida de todas as coisas”.


http://wdjoyner.org/photography/public-domain/abstract-art/kandinsky/kandinsky.comp-6.jpg

Fig. 04 – Wassily KANDINSKY


As concepções da Relatividade e da Física Quântica ampliaram este estranhamento de quem pretendia ser medida e referencial dimiúrgico.


Allain Badiou a contrapõe a ARTE com a NATUREZA. A natureza é o que do ser é rigorosamente normal” (1996: 109). Ainda Badiou completa “a natureza é a normalidade recorrente. Assim o ser-natural realiza uma estabilidade, um equilíbrio maximal entre a apresentação e representação (+), entre presença (+) e a inclusão (+) entre situação (+) e o estado da situação(+) (1996: 395).



Nas CIÊNCIAS, tanto NATUREZA como ARTE são entes primitivos, necessários para a investigação, mas impossíveis de serem definidos na linguagem. No máximo é possível lançar sobre eles algumas afirmações. As ciências partem dessas afirmações e constroem seu conhecimento ao redor delas. Em todos os tempos a ciência precisou dessa base preliminar para dar um salto de qualidade. Os pensadores gregos partiram dessa base como em Platão que escreveu (1941: 265) quero, pois, que a beleza do céu visível não seja mais que a imagem do céu inteligível. Assim nos serviremos dos astros no estudo da astronomia, como nos serviremos das figuras na geometria, sem nos determos no que se passa no céu, se queremos nos fazer verdadeiros astrônomos e tirar algum proveito da parte inteligente da nossa alma”. Adiante essa frase será resumida: Depois de olhar os astros, deixemos as estrelas em paz e façamos astronomia”. Na arte, o conceito de ente primitivo pode ser remetido ao conceito de supra-sensível. De Duve declarou (1998, p.139): “o supra-sensível é o domínio ou, melhor, é o terreno ‘ilimitado, mas também inacessível’, além do sensível, cuja realidade não pode sr afirmada nem aceita como verdadeira, mas cuja necessidade deve ser postulada, e ‘devemos de fato preencher essa necessidade com idéias”.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh_dxWtSov1altfmxTkCjglhyphenhyphen7NRGgTbLOFownv5bvblvopHYp34ioq579ONSM8EhCfGTYNQEFiKxwxbOERUkILviCCXBw1JSLjnnqjAIu2gfJPQLCAGSN4ocYysmA9MwCM1bdAJuqDxgi1/s1600-h/dna.gif


Fig. 05 – ESPIRAL MÚLTIPLA CONSTRUIDA a PARTIR do CÓDIGO GENÉTICO


As pontes (inter – esse) - entre a Natureza e a Arte - são numerosas e continuadas no tempo desde os vestígios mais antigos. A criatura projetava o seu próprio repertório sobre a Natureza e dela retirava, e representava ao seu modo, o que pertencia a este repertório e no seu interesse, como caçador.


http://www.quesabesde.com/noticias/nomada-altamira-descubrimiento-marcelino-sanz-sautuola-juan-vilanova,1_5147

Fig. 026- TETO dos BISÕES da CAVERNA de ALTAMIRA



O primitivo caçador evidenciava, nas paredes das cavernas, o seu interesse e ali registrava - em tintas, manchas e linhas nas suas pinturas - as suas buscas que realizava na Natureza

Gele concilia e transforma esta oposição, pela educação, e esclarece (1980 : 133) “cumpre a educação estética impor-se como mediadora, porque o seu fim consiste, segundo Schiller, em conferir às inclinações, tendências, sentimentos e impulsos, uma formação que as leve a participar na razão de tal modo que a razão e a espiritualidade ficam despojadas do caráter abstrato, para se unirem a natureza como tal, e da carne e do seu sangue se enriquecerem”. Gele transforma em complementaridade aquilo que para Allain Badiou se contrapõe pela variedade e objetividade da natureza opondo-a à exigência da unidade e à abstração da razão".



Bibliografia para alguns argumentos na distinção entre NATUREZA e ARTE:


BADIOU, Alain. O ser e o evento. Rio de Janeiro : Zaha r- UFRJ, 1996. 402p


BOESIGER, Willy . Le Corbusier Les Derniers œuvres Zurich : Artemis, œuvres complètes 1970, , v.8, 208 p


DE DUVE, Thierry «Kant depois de Duchamp» Arte & Ensaios Revista do Mestrado em História da Arte da EBA. Rio de Janeiro : EBA-UFRJ Ano 5, no 5, pp.125-154, 1998.


KANDINSKY, Wassily. Ponto e linha sobre o plano: contribuição à análise dos elementos da pintura. São Paulo : Martins Fontes, 2001 206 p. il

-------- Do espiritual na arte e na pintura em particular [2ª ed] São Paulo : Martins Fontes, 2001 206 p. il



PESSOA, Fernando . Poemas. (6ª ed). . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985 p. 159


PLATÃO (427-347 a.C) La república o el Estado. Buenos Aires : Espasa-Calpe, 1941. 365 p.

sábado, 30 de outubro de 2010

ISTO NÃO É ARTE - 01

01 – O HÁBITO da INTEGRIDADFE INTELECTUAL em ARTE.


Fig. 01 – “Isto não é um cachimbo” por André Magritte



O único elemento, entre todos os “autênticos” pontos de vista essenciais que elas (as universidades) podem, legitimamente, oferecer aos seus estudantes, para ajudá-los em seu caminho pela vida afora, é o hábito de assumir o dever da integridade intelectual; isso acarreta necessariamente uma inexorável lucidez a respeito de si mesmos

Max WEBER 1989: 70 [1]



No aforismo acima Max Weber aponta o caminho que também é da arte. Em ARTE NÂO EXISTE o CERTO ou o ERRADO, há caminhos que apontam e levam para arte, outros que não levam até ela. Há aqueles que apenas a tangenciam ou passam longe deste território de forças e de motivações humanas. Os que não levam até ela não são caminhos errados ou equivocados. Apenas o caminhante se desvia da arte pois conhece as dificuldades de penetrar, e de circular, por entre estas forças. Ainda, por desconhecimento, simplesmente não sabe da entrada da arte e dos custos e dos benefícios desta caminhada. O importante em relação aos caminhos da arte é o hábito de assumir o dever da integridade intelectual.




[1] - WEBER, Max. Sobre a universidade. São Paulo : Cortez, 1989. 152 p.



Fig. 02 – O clássico de William Shakespeare

interpretado pelo grupo TEIA PAULISTA de PONTOS de CULTURA[1]


O pensamento de Max Weber possui, numa universidade, toda a sua validade e sentido. Especialmente se o artista está sendo convidado, por todos os meios, para ingressar numa universidade, como o faz Marcel Duchamp[2].





[2] DUCHAMP. Marcel “O artista deve ir à universidade?”[2] in SANOULLET, Michel. DUCHAMP DU SIGNE réunis et présentés par Michel Sanouillet Paris: Flammarrion, 1991, pp. 236-239


Fig. 03 – Auguste Rodin “ O Pensador


A História mantém aberto o caminho da DÙVIDA após a desmoralização dos grandes discursos corroídos pelas certezas das própria onipotência e pelo esgotamento das fontes de suas ideologias oportunistas. Caminho da DÙVIDA revigorado e sinalizado pelas investigações de Paul Ricœur. Este historiado subiu aos ombros de Descartes para ver mais longe e sinalizar este caminho da DÙVIDA:

“..para nós, como para os primeiros contraditores de Descartes, a questão é saber se, dando a ordem das razões a forma do círculo, Descartes não fez do procedimento que desvia o Cogito, portanto, o “eu” em sua solidão inicial, um gigantesco circulo vicioso. Uma alternativa parece então se abrir ou o Cogito tem valor de fundamento mas é uma verdade estéril à qual não pode ser dada uma seqüência sem ruptura da ordem das razões, ou é a idéia do perfeito que o fundamenta na sua condição de ser finito e a primeira verdade perde a auréola do primeiro fundamento.” (RICOEUR, 1991:p.21) [1]


No presente continuam vigentes os ensinamentos de Sócrates. Eles abrem o imenso território no qual é possível cultivar as mais absolutas e otimistas certezas como as mais radicais e amargas incertezas. Território que permitiu, com o sono da Ética, as mais bitoladas certezas, como também as mais imponderáveis afirmações das dúvidas radicais - sobre tudo e todos - até se defrontar com às raias do abjeto cinismo.


Como a arte não é cumulativa - e necessita afirmar-se no aqui e agora - ela contorna as certezas bitolantes, para não produzir o “dejá vue” - em outro tempo e lugar - como se afasta a vontade de todo anarquismo que desconsidera,ou atropela, a coerência entre a arte, a obra e a vida. Está coberta de razão a mãe que insiste “meu filho não faça artes”. Ela tenta contornar aquilo que infunde tanto euforia desmedida ao seu filho ou o aproxima do perigoso extremo da anarquia.




[1] - http://www.consciencia.org/paulricouerjosimag.shtml em RICOEUR, P. O si mesmo como um outro. Trad. Lucy Moreira César. Campinas/SP: Papirus, 1991.


http://www.conexionbrando.com/1318843

Fig. 04 – A negação e o limite de um sistema de arte



De outra parte existem limites no exercício da dúvida. Estes limites estão nos indivíduos, nas culturas e civilizações. Em arte também não é possível - em todo o tempo e lugar - o exercício desta dúvida. Estes limites encontram-se na capacidade que uma pessoa, uma cultura ou civilização de suportar e administrar rupturas epistêmicas. Dependem da capacidade, de pessoas, das culturas ou das civilizações, suportarem o olhar crítico que lança o contraditório sobre o seu conhecimento, repertório ou capacidade de elaboração estética. O mal estar acompanha toda e qualquer civilização[1].


No exercício deste contraditório é necessário admitir que toda a memória é falsa. A memória, em relação à alguma ação, ato ou objeto, sempre dependeram da capacidade de percepção desta ação, ato ou objeto. Como esta percepção não é total em relação a todos os aspectos - desta ação, ato ou objeto - a memória sempre será parcial em relação à causa desta percepção. Assim as versões de ações, atos ou objetos dependem desta percepção mais ou menos objetivo, mas que dificilmente será total.


Ética e estética não só rimam, mas são campos de forças que se estimulam e se energizam reciprocamente. Se a ética exige atos praticados na autonomia da vontade - como condição para possuírem valor e sentido - a estética valoriza as ações humanas dos sentidos humanos na medida em que são praticados pela vontade humana autônoma conferindo-lhes valor e sentido na medida de sua coerência com a verdade.


Numa época em que as potências industriais, econômicas e os estados nacionais aprenderam a dizer não ao uso indiscriminado da energia nuclear, ao terrorismo de estado, à pedofilia e ao comércio predatório mundial, cabe também à arte aprender a dizer não a aquilo que a corrói por dentro. Há necessidade de distinguir obra de trabalho e o agir do fazer. O neurótico fazer pelo fazer é bem diferente do agir. O agir sabe dizer não. A volúpia - do fazer pelo fazer - não possui esta prerrogativa. O fazer é a explosão de energias em cadeia que não encontra seus limites e consome tudo na sua passagem devastadora pelos cenários humanos mais civilizados.


Diante do agir é possível ao artista afirmar - com toda a sua convicção e sentido - de que não quer fazer mais uma obra[2]. Contudo, no contraditório, também é certo, que em arte, não há como pedir desculpas após uma obra malsucedida e que não alcança o território das forças da arte.




[1] FREUD, Sigmund.(1858-1939).O mal estar na civilização (1930). Rio de Janeiro : Imago, 1974. pp. 66-150. (Edição standard brasileira de obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v.13)

Gängeviertel: Offener Brief an Bezirksamtsleiter Markus Schreiber 10.09.2010

http://medienwatch.wordpress.com/gangeviertel-offener-brief-an-bezirksamtsleiter-markus-schreiber/

Fig. 05 – A ausência da obra de arte, o seu hipotético restauro e a industria da sua revitalização.


Cabe ao artista a direito da distinção da obra e do trabalho e entre o agir do fazer. Cabe-lhe também não se confundir com a obra e nem com a arte. Para não se confundir com a obra, o artista abstém dela. Arte que se confunde com a vida, sim, e desta vida como o efeito resulta da sua causa. Ou como a artista Christina Balbão (1917-2007)[1] gostava de resumir: “ não quero produzir mais um objeto para o mundo já poluído com eles”. O artista afirma, neste seu AGIR, o seu direito à vida e que precede todo fazer da Arte.

De outra parte o artista - e o espectador de sua obra - possuem o direito ao exercício desta abstenção da obra. O silêncio - ou ausência de sua obra - confere uma ascese que faz brotar e revigora aquilo do qual o asceta se priva. Privação que penetra no clássico campo filosófico da epokhou da suspensão provisória do julgamento.

Diante desta suspensão, de qualquer juízo preliminar, ganha plenitude de sentido a clássica escolha entre SER ou NÂO SER ARTE. Diante dos desconhecimentos, das frequentes confusões e os seus contornos, abre-se neste blog uma série de artigos para contemplar esta questão das competências e limites das artes diante de outros saberes, direitos e verdades.

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Este artigo abre a série de matérias relativos ao 2º ano deste blog.



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